quinta-feira, 21 de junho de 2012

A MÚSICA DE ERICH ZANN

de H.P. Lovecraft
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.





Examinei os mapas da cidade com o maior dos cuidados, mas nunca mais encontrei a Rue d'Auseil. Estes mapas não incluíam apenas os modernos, pois sei que nomes de ruas mudam. Pelo contrário, imergi profundamente nas antiguidades do local, e explorei em pessoa cada região nomeada com qualquer título que pudesse responder pela rua que conheci por Rue d'Auseil. Porém, apesar de tudo que fiz, permanece um fato humilhante que não consiga encontrar a casa, a rua, ou mesmo a localidade, onde, durante os últimos meses de minha empobrecida vida como estudante de metafísica na universidade, ouvi a música de Erich Zann.


Não duvido que minha memória esteja defeituosa; pois minha saúde, tanto a física quanto a mental, fora gravemente perturbada por todo o período de minha residência na Rue d'Auseil, e recordo que não levei nenhum de meus conhecidos ali. Mas o fato de não conseguir encontrar mais o lugar é tão singular quanto causador de perplexidade; pois ficava a meia hora de caminhada da universidade, e era distinta por peculiaridades que dificilmente poderiam ser esquecidas por qualquer um que uma vez lá estivesse. Jamais conheci pessoa alguma que tivesse visto a Rue d'Auseil.


A Rue d'Auseil era paralela a um escuro rio cujas encostas íngremes abrigavam alguns armazéns de tijolos e janelas foscas, atravessado por uma soturna ponte de pedras negras. Eram sempre sombrias as margens daquele rio, como se a fumaça das fábricas próximas bloqueassem o sol para toda a eternidade. O rio liberava também odores malignos que nunca senti em parte alguma, e que podem talvez ajudar-me um dia a encontrá-lo, já que eu os reconheceria de imediato. Além da ponte, haviam ruas estreitas, de calçamento de pedras; e então vinha a subida, a princípio gradual, e depois cada vez mais íngreme conforme chegava-se perto da Rue d'Auseil.


Jamais vi rua tão estreita e íngreme como a Rue d'Auseil. Era quase um penhasco, fechada a todos os veículos, consistindo de vários pontos com escadarias, e terminando no topo com um impávido muro coberto de heras. Sua pavimentação era irregular; às vezes lajotas de pedra, às vezes cantaria, e às vezes a terra nua que lutava contra a vegetação cinza-esverdeada. As casas eram altas, encimadas por telhados, incrivelmente antigas, e inclinadas de modo insano para trás, para frente e para os lados. De vez em quando um par oposto, ambos inclinados para a frente, quase se encontravam no meio da rua, como um arco; e certamente isto impedia a maior parte da luz de alcançar o chão abaixo. Haviam umas tantas pontes suspensas de casa a casa, por toda a rua.



Os habitantes da rua impressionavam de modo peculiar. A princípio pensei que isto acontecia porque eram todos silenciosos e reticentes; porém depois decidi que era porque eram todos muito velhos. Não sei como foi que cheguei a viver em tal rua, mas não estava em bom estado mental quando fiz a mudança para lá. Havia vivido em muitos lugares pobres, sempre despejado por falta de dinheiro; até que encontrasse aquela casa torta na Rue d'Auseil, mantida pelo paralítico Blandot. Era a terceira casa contando a partir do topo da rua, e de longe a mais alta de todas.


Meu quarto ficava no quinto andar; o único quarto habitado ali, já que a casa era quase vazia. À noite ouvia estranhas músicas vindas do elevado sótão acima, e no dia seguinte perguntei ao velho Blandot sobre isso. Ele contou-me que era um velho alemão, tocador de viola, um homem estranho e estúpido que assinava o nome de Erich Zann, e que tocava à noite numa orquestra de um teatro barato; e além disso falou que o desejo de Zann de tocar à noite, depois de voltar do teatro, era a razão pela qual o alemão havia escolhido aquele aposento isolado lá em cima, cuja única janela de cumeeira era o único ponto na rua a partir do qual poder-se-ia contemplar por cima do fim do muro, o declive e o panorama além deste.


Portanto eu ouvia Zann todas as noites, e embora isto me mantivesse acordado, eu permanecia assombrado pela estranheza da música. Mesmo sabendo muito pouco de arte, eu tinha certeza de que nenhuma das harmonias tinha qualquer relação com qualquer coisa que já tivesse ouvido; e concluí que ele era um compositor de gênio altamente original. Quanto mais ouvia, mais ficava fascinado, até que depois de uma semana, resolvi fazer amizade com o velho.


Uma noite, quando ele estava voltando de seu trabalho, interceptei Zann no corredor, e contei a ele que gostaria de conhecê-lo e estar com ele enquanto ele tocava. Ele era uma pessoinha curvada e encarquilhada, de roupas surradas e olhos azuis, com uma face grotesca, mais parecendo um sátiro, e quase totalmente calvo; e ouvindo minhas primeiras palavras, ele pareceu tanto enfurecido quanto apavorado. Apesar disso, minha evidente cordialidade acabou por fim a comovê-lo; e ele relutantemente conduziu-me a segui-lo pelas escadas escuras, rangentes e frágeis. Seu aposento, um dos dois do sótão inclinado, ficava no lado oeste, virado para o muro alto que formava o final alto da rua. Seu tamanho era enorme, e a mim parecia ainda maior devido a seu estado extraordinariamente negligente e desolado. Quanto a mobílias, havia apenas uma estreita cama de ferro, um lavatório sujo, uma pequena mesa, uma grande estante de livros, um atril de ferro, para dispor a partitura, e três cadeiras em estilo antigo. As partituras estavam empilhadas pelo chão, em desordem. As paredes não tinham rodapé, e provavelmente nunca conheceram pintura nem papel; enquanto a abundância de poeira e teias de aranha fazia o local parecer mais deserto que habitado. Ficava evidente que o mundo de beleza de Erich Zann estava além, em algum cosmos distante da imaginação.


Gesticulando para que eu me sentasse, o velho parvo fechou a porta, virou um grande candelabro e acendeu uma vela, para aumentar o efeito daquela que havia trazido consigo. Removeu então sua viola de sua maleta comida por traças, sentando-se na menos desconfortável das cadeiras. Não usou o atril, nem ofereceu-me escolha, começando a tocar de memória, encantando-me por mais de uma hora com peças que jamais havia ouvido antes; peças que devem ter sido de sua própria autoria. Descrever sua natureza exata é impossível para aquele que não estudou música. Eram um tipo de fuga, com passagens recorrentes da mais cativante qualidade, mas para mim era notável a ausência de quaisquer das estranhas notas que havia ouvido ao longe, de meu quarto abaixo do dele.


Lembrei-me dessas notas assombrosas, que já havia muitas vezes assobiado inadvertidamente para mim mesmo, de modo que quando o tocador repousou seu instrumento, perguntei se ele não tocaria alguma delas para mim. Mas ao começar o pedido, aquela face de sátiro enrugado perdeu a placidez entediada que havia demonstrado durante seu tocar, e começou a mostrar a mesma mistura curiosa de fúria e medo que eu havia notado quando segurei-o na escada. Por um momento senti vontade de usar da persuasão, não dando muito valor aos caprichos da senilidade; e até mesmo tentei despertar o tom mais estranho do meu anfitrião, assobiando algumas das notas que havia ouvido na noite anterior. Mas não fiz isso por mais que um momento; pois quando o músico idiotado reconheceu a nota assobiada, seu rosto subitamente se distorceu numa expressão além de qualquer descrição, e sua mão direita, fria e ossuda, veio calar minha boca, silenciando minha rude imitação. Fazendo isto, demonstrou mais ainda sua excentricidade olhando de soslaio sua única janela acortinada, como se temendo algum intruso – olhar duplamente absurdo, já que o sótão era alto e inacessível sobre todos os telhados adjacentes, sendo esta janela o único ponto naquela íngreme rua, assim me havia dito o zelador, do qual podia-se ver por cima do muro final.


O olhar do velho lembrou-me do comentário de Blandot, e com um certo capricho senti desejo de observar o amplo e fascinante panorama dos telhados enluarados e das luzes da cidade além da colina, que de todos os habitantes da Rue d'Auseil, só este músico rezingão podia contemplar. Passei em direção à janela e teria puxado as cortinas ordinárias, se o locatário retardado não me detivesse, desta vez com uma fúria assustada ainda maior; e com a cabeça apontava para a porta, puxando-me nervoso, com ambas as mãos. Agora já bastante enojado com meu anfitrião, ordenei a ele que me libertasse, que eu iria de uma vez. Seu aperto afrouxou, e quando ele notou minha repulsa e ofensa, sua própria raiva pareceu diminuir. Ele voltou a apertar, mas dessa vez de maneira amigável, forçando-me a sentar numa cadeira; e então, com um semblante melancólico foi até a mesa atulhada, onde escreveu muita palavras usando um lápis, no francês esforçado de um estrangeiro.


A nota que ele finalmente me passou era um apelo à tolerância e ao perdão. Zann dizia ser velho, solitário, e aflito por estranhos medos e desordens nervosas conectadas à sua música e outras coisas. Ele havia gostado de minha audiência, e desejava que eu voltasse, sem prestar atenção às minhas excentricidades. Mas não podia tocar novamente suas harmonias bizarras, e não podia suportar ouvi-las vindo de outrem; nem podia suportar qualquer coisa naquele aposento ser tocada por outra pessoa. Ele não sabia, até nossa conversa de corredor, que eu podia ouvir ao longe a música que saía de seu aposento, e agora pedia que eu arranjasse com Blandot um quarto mais baixo, onde não pudesse ouvi-lo à noite. Ele pagaria a diferença de aluguel, assim escreveu.


Sentado decifrando aquele execrável francês, senti-me mais compreensivo perante o velho. Ele era vítima de sofrimento físico e nervoso, como também era eu; e meus estudos metafísicos haviam ensinado-me a gentileza. No silêncio, veio um leve som da janela – a persiana deve ter tremido com o vento da noite, e por alguma razão tremi tão violentamente quanto havia feito Erich Zann. De modo que quando terminei a leitura, apertei a mão de meu anfitrião e despedi-me como seu amigo.


No dia seguinte, Blandot deu-me um quarto mais caro no terceiro andar, entre os apartamentos de um agiota envelhecido e o quarto de um respeitável estofador. Não havia ninguém no quarto andar.


Não demorou muito para que eu descobrisse que a ansiedade por companhia de Zann não era tão grande quanto ele parecia demostrar, quando me persuadia a deixar o quinto andar. Ele não me procurava e quando eu ia atrás dele, parecia estar inquieto e tocava de maneira apática. Isto sempre acontecia à noite – durante o dia, ele dormia e não receberia ninguém. Minha simpatia por ele não cresceu, embora o sótão e a música bizarra pareciam fascinar-me de modo estranho. Eu sentia o desejo curioso de olhar pela janela, por cima do muro, olhar lá para baixo, pelo declive oculto para os telhados e as espiras brilhantes que deviam ser vistas dali. Uma vez subi até a cumeeira durante a hora do teatro, quando Zann estava fora, mas a porta estava trancada.


O que consegui fazer foi ouvir ao longe a toada noturna do velho retardado. A princípio, andava na ponta dos pés até o meu velho aposento do quinto andar, e então criava coragem para subir pela última escadaria rangente até o acimado sótão. Lá no estreito corredor, logo antes da porta aparafusada de fechadura coberta, muitas vezes ouvi sons que me enchiam de um temor indefinível – temor de um vago fascínio e mistério agourento. Não é que os sons fossem medonhos, pois não eram; mas continham vibrações sugestivas de algo além deste globo terráqueo, que em certos intervalos assumiam uma qualidade sinfônica que eu mal podia conceber produzida por apenas um músico. Certamente Erich Zann era um gênio de poder espantoso. Conforme passaram as semanas, a toada tornou-se mais selvagem, enquanto o velho músico mostrava abatimento e furtividade cada vez maiores, que me causavam pena. Ele agora recusava-se a receber-me e me evitava toda vez que nos encontrávamos nas escadarias.


E então, uma noite, quando fui ouvir perto da porta, ouvi a viola gritante decair numa caótica babel sonora; um pandemônio que me fez duvidar da própria sanidade, se não viesse detrás daquele portal barrado uma piedosa prova de que o horror era real – o resmungo horrendo e inarticulado que apenas um mudo pode proferir, e que só é ouvido em voz alta naqueles momentos do mais terrível medo ou angústia. Bati repetidamente na porta, mas não obtive resposta. Depois esperei no corredor sombrio, tiritando de frio e medo, até que ouvi os débeis esforços do musicista ao erguer-se do chão, com a ajuda de uma cadeira. Acreditando que o velho estava consciente após um surto de desmaio, voltei a bater, enquanto identificava-me com voz solícita. Ouvi Zann ir aos tropeções até a janela e fechar tanto a persiana quanto o caixilho, e mais uma vez tropeçar balbuciante até a porta, que destrancou para receber-me. Desta vez, o prazer provocado por minha presença era real; pois seu rosto distorcido reluzia de alívio, enquanto ele agarrava meu casaco como uma criança agarra as saias da mãe.


Tremendo de modo patético, o velho forçou-me a sentar numa cadeira enquanto afundou em outra, ao lado da qual viola e arco estavam jogados descuidadamente no chão. Ele sentou inativo por um curto período de tempo, balançando a cabeça de maneira esquisita, numa sugestão paradoxal de alguém que ouve algo, intensa e assustadamente. Logo após pareceu estar satisfeito, e indo a uma cadeira na mesa escreveu uma breve nota, que passou para mim, e voltou à mesa, onde começou a escrever rápida e incessantemente. A nota implorava-me, por misericórdia, e pela minha própria curiosidade, que eu esperasse enquanto ele fazia um registro completo, em alemão, de todas as maravilhas e terrores que o assediavam. Esperei, e o lápis do retardado fluiu. Talvez uma hora mais tarde, quando ainda esperava e as folhas febrilmente escritas do velho músico continuavam a empilhar-se, que vi Zann parar como se começando a entrar num choque horrendo. Sem dúvida, ele estava fitando a janela coberta pela cortina, e ouvindo algo, enquanto tremia de tantos calafrios. Foi então que eu pensei ter ouvido também algum som; mas não era um som horrível e sim uma nota musical exoticamente baixa e infinitamente distante, sugerindo um músico em uma das casas vizinhas, ou em alguma morada além do alto muro sobre o qual nunca conseguíamos olhar. O efeito sobre Zann fora terrível, pois, largando seu lápis, subitamente ele levantou-se, tomou da viola e começou a rasgar a noite com a toada mais selvagem que jamais ouvi ser tocada por seu arco, salvo quando ouvindo atrás da porta fechada.


Seria inútil descrever a toada de Erich Zann naquela noite temível. Fora mais horrenda que tudo que havia ouvido antes, porque agora podia ver a expressão de seu rosto, e perceber naquele momento que a motivação de tudo era medo puro. Ele estava tentando fazer ruídos; impedir a chegada de algo, ou abafar o som de algo – o quê, eu não conseguia imaginar, por mais fascinante que pensava que pudesse ser. A toada tornou-se fantástica, delirante e histérica, mas ainda assim presa ao máximo às qualidades de gênio supremo que eu sabia que o estranho velho possuía. Reconheci a melodia – era uma dança selvagem húngara popular nos teatros, e refleti por um momento que esta era a primeira vez que jamais ouvi Zann tocar a obra de outro compositor.


Cada vez mais alto, cada vez mais selvagem, continuavam os gritos e lamentos da desesperada viola. O músico estava suando estranhamente, curvado como um macaco, sempre fitando freneticamente a janela coberta pela cortina. Em suas melodias frenéticas eu quase podia enxergar sátiros e bacanais sombrias, dançando e rodopiando insanamente por abismos borbulhantes de nuvens e fumaça e relâmpago. E então ouvi uma nota mais aguda e firme, que não vinha da viola; uma nota calma, deliberada, motivada e zombeteira, vinda muito além ao oeste.


Neste ponto a persiana começou a bater com o vento noturno uivante, que vinha do exterior como se respondesse ao louco que tocava ali dentro. A viola gritante de Zann agora se superava, emitindo sons que jamais havia pensado que uma viola seria capaz de emitir. A persiana bateu com mais ruído, soltando-se, e começou a bater contra a janela. Foi então que o vidro quebrou-se, trêmulo, após os impactos persistentes, e o vento gélido correu a encher o aposento, fazendo as velas apagarem e espalhando as folhas de papel na mesa, onde Zann havia começado a escrever seu horrível segredo. Olhei para Zann, e o que vi estava além da observação consciente. Seus olhos azuis estavam arregalados, vítreos e cegos, e a toada frenética havia tornado-se uma orgia cega, mecânica e irreconhecível, que escrito algum conseguirá jamais chegar a sugerir.


Uma súbita rajada, mais forte que as outras, tomou do manuscrito e o levou em direção à janela. Segui as folhas esvoaçantes, desesperado, mas se foram antes que eu alcançasse as vidraças quebradas. Então lembrei de meu antigo desejo de observar desta janela, a única janela na Rue d'Auseil a partir da qual poder-se-ia enxergar a ladeira além do muro, e a cidade espalhada lá embaixo. Estava muito escuro, mas as luzes da cidade sempre estavam acesas, e eu esperei vê-las entre a chuva e o vento. Porém quando olhei, da mais alta das janelas da cumeeira, olhei enquanto as velas apagavam e a viola insana uivava junto com o vento noturno, não vi cidade alguma espalhada lá embaixo, e nenhuma luz amigável brilhando nas ruas familiares, mas apenas a treva do espaço ilimitado; espaço inimaginável, vivo de movimentos e música, sem comparação a qualquer coisa da terra. E quando olhei aquilo, aterrorizado, o vento soprou ambas as velas daquela antiga cumeeira, deixando-me numa escuridão selvagem e impenetrável, caos e pandemônio diante de mim, e por trás a loucura demoníaca daquela viola que uivava para a noite.


Dei passos vacilantes para trás, sem atinar como acender uma luz, batendo contra a mesa, virando uma cadeira e finalmente, às apalpadelas, chegando onde a treva gritava com sua música chocante. Para salvar-me e a erich Zann, eu deveria ao menos tentar, não importando os poderes que se me opunham. Pensei então sentir alguma coisa gélida roçar minha pele, e gritei, mas meu grito não podia ser ouvido acima daquela viola macabra. Subitamente, da escuridão o arco da viola, tocando insanamente, bateu em mim, e eu percebi que estava próximo ao músico. Aproximei-me mais, toquei as costas da cadeira de Zann e então encontrei e balancei seu ombro, num esforço de reanimar seus sentidos.


Ele não respondeu, e ainda assim a viola gritava, sem descanso. Passei minha mão para a cabeça dele, cujo balançar mecânico consegui parar, e gritei em sua orelha, vamos fugir das coisas desconhecidas da noite. Mas nem ele me respondeu, nem diminuiu o frenesi de sua música impronunciável, enquanto por toda a cumeeira, estranhas correntes de vento pareciam dançar na escuridão e na babel. Quando minha mão tocou sua orelha, senti calafrios, mas não soube por quê – não soube até sentir a face rígida; a face gelada, paralisada e que não respirava, cujos olhos vítreos arregalavam-se inutilmente para o vácuo. E então, por algum milagre, encontrei a porta e a grande maçaneta de madeira, e fugi maníaco, daquela coisa de olhos vítreos no escuro, e do mórbido uivar daquela viola maldita, cuja fúria aumentou quanto mais eu fugia.


Saltando, flutuando, voando abaixo por aquelas escadarias sem fim pela casa escura; correndo sem pensar pela rampa estreita e íngreme da antiga rua de degraus e casas tortas; fazendo um estardalhaço com meus passos sobre as pedras das ruas mais baixas e até o pútrido rio murado por cânions; perdendo o fôlego ao correr pela grande e sombria ponte até as ruas e bulevares mais largos e saudáveis que eu conhecia; todas essas terríveis impressões ainda guardam-se dentro de mim. E eu lembro que não havia vento, que a lua estava visível, e que todas as luzes da cidade cintilavam.


Apesar de minhas mais cuidadosas buscas e investigações, desde então jamais consegui encontrar a Rue d'Auseil. Mas em parte sou grato por não encontrá-la; nem a rua, nem a vertigem nos abismos insonháveis daquelas folhas de linhas apertadas, que poderiam ter explicado o que estava por trás da música de Erich Zann.

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