domingo, 25 de setembro de 2011

OS GATOS DE ULTHAR



H. P. Lovecraft
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.






É dito que em Ulthar, que repousa além do rio Skai, ninguém pode matar gatos; e isto posso crer ao observar aquele que se senta, ronronando, diante do fogo. Pois o gato é enigmático, e íntimo de coisas que os homens não conseguem enxergar. Ele é a alma do antigo Egito, e portador de histórias das cidades esquecidas em Meroe e Ophir. Ele é parente dos senhores da selva, e herdeiro dos segredos da África antiga e sinistra. A Esfinge é sua prima, e o gato fala seu idioma; mas ele é mais antigo que a Esfinge, e recorda tudo que ela já esqueceu.


Em Ulthar, muito antes que os habitantes proibissem o assassinato dos gatos, ali habitava um velho caseiro e sua esposa, que extraíam prazer da captura e morte dos gatos de seus vizinhos. Porque eles faziam isso, eu não sei; salvo que muitos odiavam a voz noturna dos gatos, e aborreciam-se com os gatos correndo furtivamente nas chácaras e jardins, durante o crepúsculo. Porém, qualquer que fosse a razão, estes velhos sentiam prazer em capturar e matar todos os gatos que chegavam perto de sua cabana; e deduzindo a partir dos sons que ouviam após o escurecer, muitos aldeões imaginavam que o modo de assassinato era excessivamente peculiar. Mas os aldeões não discutiam essas coisas com o velho e sua esposa; tanto por causa da expressão habitual nos rostos encarquilhados dos dois, quanto porque sua cabana era tão pequena e sombriamente oculta sob os carvalhos que se espalhavam nos fundos de uma chácara abandonada. Na verdade, por mais que os donos de gatos odiassem essas estranhas pessoas, as temiam muito mais; e ao invés de acusá-los como assassinos brutais, apenas cuidavam para que nenhum bichano querido chegasse perto da remota cabana sob as árvores sombrias. Quando, devido a algum deslize inevitável, um gato sumia, e sons eram ouvidos após o escurecer, aquele que perdera o gato lamentaria impotente; ou consolar-se-ia agradecendo ao Destino por não ter sido uma de suas crianças a desaparecer. Pois o povo de Ulthar era simples, e não sabia da origem dos gatos.


Um dia, uma caravana de estranhos andarilhos do Sul entrou pelas ruas estreitas e calcetadas de Ulthar. Eram viandantes de pele escura, e não pareciam com outros povos andarilhos que passavam pela vila duas vezes por ano. Na praça do mercado, liam a sorte em troca de prata, e compravam contas enfeitadas dos mercadores. Qual a terra natal desses viandantes, ninguém sabia dizer; mas parecia que eram dados a estranhas rezas, e que haviam pintado nos lados de seus vagões, estranhas figuras de corpos humanos e cabeça de gatos, falcões, carneiros e leões. E o líder da caravana usava um toucado com dois chifres e um curioso disco entre eles.


Havia nesta singular caravana um garotinho, sem pai nem mãe e apenas um minúsculo gatinho preto para cuidar. A praga não havia sido bondosa com ele, mas o deixara aquela coisinha felpuda para mitigar-lhe a tristeza; e quando se é muito jovem, encontra-se muito alívio nos brinquedos agitados de um gatinho preto. Assim o garoto, que o povo escuro chamava de Menes, mais sorria que chorava, quando sentava a brincar com seu gracioso gatinho, na entrada de um vagão de estranha pintura.



Na terceira manhã da estadia dos viandantes em Ulthar, Menes não conseguiu achar o gatinho; e chorou alto na praça do mercado, até que certos aldeões contaram-no sobre o velho e sua esposa, e sobre os sons ouvidos na noite. E quando o garoto ouviu estas coisas, seu choro deu lugar à meditação, e finalmente às rezas. Ele esticou seus braços em direção ao sol e rezou numa língua que aldeão algum poderia compreender; embora na verdade não se esforçassem muito para isto, já que sua atenção estava mais tomada pelo céu e pelas esquisitas formas assumidas pelas nuvens. Era algo bastante peculiar, mas conforme o garotinho declamava seu pedido, parecia que formavam-se acima figuras sombrias e nebulosas de coisas exóticas; criaturas exóticas coroadas de discos ladeados por chifres. A natureza é tão cheia dessas ilusões que impressionam os imaginativos.


Naquela noite os viandantes deixaram Ulthar e jamais foram vistos novamente. E os residentes ficaram perturbados, quando notaram que em toda a aldeia, não havia um só gato a ser encontrado. De cada lar, o gato familiar havia sumido; gatos grandes e pequenos, negros, cinzas, listrados, amarelos e brancos. O velho burgomestre Kranon jurava que o povo escuro havia roubado os gatos, por vingança da morte do gatinho de Menes; e amaldiçoava a caravana e o garotinho. Mas Nith, o tabelião magro, declarou que o velho caseiro e sua esposa eram pessoas mais suspeitas; porque seu ódio a gatos era notório e cada vez mais ousado. Ainda assim, ninguém ousou reclamar com o sinistro casal; mesmo quando o pequeno Atal, filho do estalajadeiro, jurou que vira no crepúsculo todos os gatos de Ulthar naquela execrável chácara sob as árvores, caminhando lenta e solenemente num círculo ao redor da cabana, aos pares, como se numa performance de algum desconhecido rito de feras. Os aldeões não souberam muito o que acreditar de um garoto tão pequeno; e muito embora temessem que o casal de velhos houvesse encantado os gatos para matá-los, preferiam não repreender o velho caseiro até que este fosse encontrado fora de sua chácara sombria e repelente.


Foi então que Ulthar foi dormir sentindo uma raiva impotente; e quando o povo acordou de manhãzinha – olha só! Todos os gatos de volta a seus lares de costume! Grandes e pequenos, negros, cinzas, listrados, amarelos e brancos, nenhum deles estava faltando. Pareciam muito gordos e luzidios os gatos, e sonoros em seu contentamento ronronante. Os cidadãos debateram sobre a questão, muito espantados. O velho Kranon insistiu mais uma vez que o povo escuro os havia levado, já que os gatos não voltam vivos da cabana do ancião e sua esposa. Mas todos concordaram numa coisa: a recusa dos gatos em comer suas porções de carne e beber seus pratos de leite era excessivamente curiosa. E por dois dias inteiros, os reluzentes e preguiçosos gatos de Uthar não tocaram a comida, apenas deitando perto do fogo ou sob o sol.


Passou quase uma semana até que os aldeões notassem que não surgia luz à noite, vinda das janelas da cabana sob as árvores. Então o magro Nith comentou que ninguém havia visto o velho e sua esposa, desde a noite do sumiço dos gatos. Passada mais uma semana, o burgomestre decidiu superar seus medos e bateu à porta daquela habitação estranhamente silenciosa, cumprindo seu dever, embora ao fazê-lo tivesse o cuidado de trazer Shang, o ferreiro, e Thul, o cortador de pedras, como testemunhas. E quando derrubaram a frágil porta, encontraram apenas isto: dois esqueletos humanos de ossos limpos no chão de terra batida, e muitos besouros esquisitos rastejando pelos cantos escuros.


Depois disso houve muita conversa entre os habitantes de Ulthar. Zath, o juiz, debateu longamente com Nith, o tabelião magro; e Kranon e Shang e Thul foram enchidos de perguntas. Até mesmo o pequeno Atal, filho do estalajadeiro, foi bastante questionado e recebia balas como recompensa. Falavam do velho caseiro e sua esposa, da caravana de viandantes escuros, do pequeno Menes e seu gatinho preto, da reza de Menes e do céu durante essa reza, das proezas dos gatos na noite em que a caravana se retirou, e do que mais tarde fora encontrado na cabana sob as árvores sombrias da repelente chácara.


E no final, os habitantes aprovaram aquela notável lei, que é comentada por comerciantes de Hatheg e discutida por viajantes em Nir; aquela lei que dizia que em Ulthar, ninguém pode matar gatos.




HPL e um de seus gatos

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