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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O DESAFIO DO ALÉM - Final

História Colaborativa escrita por C. L. MooreA. MerrittH. P. LovecraftRobert E. Howard e Frank Belknap Long
Traduzida por Arthur Ferreira Jr.'.




Quarta e Quinta Partes:

[Robert E. Howard]




Deste último intervalo sem sentidos, emergiu com total entendimento da situação. Sua mente estava aprisionada no corpo de um aterrador nativo de um planeta alienígena, enquanto, em algum lugar no outro lado do universo, seu próprio corpo hospedava a personalidade do monstro.

Lutou contra um horror irracional. Julgando a partir de uma perspectiva cósmica, por quê sua metamorfose deveria horrificá-lo? A vida e a consciência eram as únicas realidades no universo. A forma não era importante. Seu corpo atual era horrendo apenas de acordo com os padrões terrestres. O medo e a repulsa se afogaram na empolgação da titânica aventura.

O que era seu corpo anterior senão um manto, que de todo modo seria descartado após a morte? Ele não tinha ilusões sentimentais quanto à vida da qual havia sido exilado. E o que esta o dera, senão esforços, pobreza, frustrações e repressões contínuas? Se aquela nova vida diante dele não oferecia mais, pelo menos não oferecia menos. E a intuição o dizia que ofereceria mais – muito mais.

Com a honestidade possível apenas quando a vida é despida até seu fundamento mais cru, percebeu que só lembrava com prazer das delícias físicas de sua vida anterior. Porém, há muito havia exaurido as possibilidades físicas contidas naquele corpo terráqueo. A Terra não mais oferecia emoções novas. Mas, na posse daquele novo corpo alienígena, sentia a promessa de alegrias estranhas e exóticas.

Uma exultação bastarda crescia nele. Era um homem sem mundo, livre de todas as convenções e inibições da Terra, ou deste estranho planeta, livre de todas as restrições artificiais do universo. Ele era uma divindade! Divertia-se macabramente, quando pensava em seu próprio corpo, movendo-se pela sociedade e transações da Terra, enquanto isso um monstro alienígena observava das janelas que eram os olhos de George Campbell, fixos nas pessoas que dele fugiriam, se soubessem a verdade.

Que ele andasse pela terra matando e destruindo como pudesse, a Terra e suas espécies não mais significavam coisa alguma para George Campbell. Ali, ele seria mais uma de bilhões de não-entidades, congeladas por um amontoado acúmulo de convenções, leis e costumes, fadadas a viver e morrer em seus sórdidos nichos. Porém, num único movimento às cegas, ele havia colocado-se além do lugar-comum. Aquilo não era morte, era renascimento – o nascimento de uma mentalidade madura, com uma nova liberdade que fazia pouco da catividade física em Yekub.

Ele começou. Yekub! Era o nome daquele planeta, mas como ele sabia? Então soube, já que sabia o nome daquele corpo que ocupava – Tothe. A memória, **grooved nas profundezas do cérebro de Tothe, estava remexendo-se dentro dele – sombras do conhecimento que tinha Tothe. Gravado lá no fundo dos tecidos físicos do cérebro, falavam tênues, como instintos implantados, na mente de George Campbell; e sua consciência humana os arrebatou e traduziu, para mostrar-lhe não só a segurança e a liberdade, mas o poder que sua alma, reduzida aos mais primitivos impulsos, ansiava. Não como um escravo ele habitaria em Yekub, mas como um rei! Da mesma forma que os antigos bárbaros haviam se sentado nos tronos de impérios arrogantes.



Pela primeira vez, voltou sua atenção ao que o cercava. Ele ainda continuava sobre a coisa parecida com um sofá, no meio daquele aposento fantástico, e o homem centípede diante dele, segurando o objeto de metal polido, e batendo seus espículos do pescoço. Era dessa forma que falava com ele, sabia Campbell, e o que ele dizia podia ser suavemente compreendido, através dos processos mentais implantados de Tothe, da mesma forma que ele sabia que a criatura era Yukth, senhor supremo da ciência.

Mas Campbell não deu atenção a isso, pois havia decidido seu plano desesperado, um plano tão alienígena aos costumes de Yekub, que estava além da compreensão de Yukth, e o pegou totalmente de surpresa. Yukth, como Campbell, viu a lasca de mental de ponta afiada numa mesa próxima, mas para Yukth, era apenas um implemento científico. Nem mesmo sabia que poderia ser usada como uma arma. A mente terrena de Campbell suplementava o conhecimento e a ação que se seguiram, impelindo o corpo de Tothe a fazer movimentos que nenhum homem de Yekub jamais havia feito antes.

Campbell agarrou a lasca afiada e golpeou, rasgando para cima, com selvageria. Yukth ergueu-se e cambaleou, suas entranhas espalhando-se pelo chão. Num só instante, Campbell atingia a porta. Sua velocidade era impressionante, exultante, a primeira realização da promessa de novas sensações físicas.

Conforme corria, totalmente guiado pelo conhecimento instintivo implantado nos reflexos físicos de Tothe, como se estivesse alojando uma consciência separada em suas pernas, o corpo físico de Tothe o estava levando por uma rota que havia sido passada dez mil vezes, quando animado pela mente do alienígena.



Descendo por um corredor espiralado ele correu, subiu uma escada distorcida, passou por uma porta entalhada, e os mesmos instintos que o haviam trazido aqui disseram-no que ele havia encontrado o que procurava. Estava num aposento circular, de teto de domo, que luzia azulado e lívido. Uma bizarra estrutura se erguia no meio do chão da cor do arco-íris, pavimento por pavimento, cada um de uma cor vívida e separada. O último pavimento era um cone púrpura, de cujo ápice uma névoa azul e enfumaçada subia para uma esfera que se erguia em pleno ar – uma esfera que luzia como marfim translúcido.
Aquilo, diziam a Campbell as memórias mais profundamente inculcadas de Tothe, era o deus de Yekub, embora a razão pela qual o povo de Yekub o temia e venerava havia sido esquecida há um milhão de anos. Um verme-sacerdote se impunha entre ele e o altar que nenhuma mão de carne jamais havia tocado. O fato de que ele podia ser tocado era uma blasfêmia que jamais ocorrera a um homem de Yekub. O verme-sacerdote ficou paralisado de horror, até que a lasca de Campbell arrancasse sua vida.

Com suas patas de centípede, Campbell escalou o altar pavimentado, ignorando suas súbitas vibrações, ignorando a mudança que ocorria na esfera flutuante, ignorando a fumaça que agora ondulava em nuvens azuis. Ele estava embriagado com a sensação de poder. Ele não temia as superstições de Yekub não mais do que temia as da Terra. Com aquele globo nas mãos, ele seria o rei de Yekub. Os homens-verme não ousariam negar nada a ele, enquanto ele mantinha seu deus como refém. Ele estendeu a mão para a bola – que agora não mais tinha tons de marfim, e sim era vermelha como sangue …

[Frank Belknap Long]




Saindo da barraca para a pálida noite de agosto, andava o corpo de George Campbell. Movia-se de um jeito lento e vacilante entre os corpos das árvores enormes, caminhando por uma trilha da floresta polvilhada de folhas de pinheiros, de doce odor. O ar estava picante e frio. O céu era uma taça invertida de prata congelada, manchada de poeira estelar, e ao norte longínquo, a aurora boreal derramava fluxos de fogo.

A cabeça do homem que caminhava estava derrubada de modo horrendo, virada para o lado. Dos cantos de sua boca frouxa, escorriam fios espessos de espuma cor de âmbar, que se agitava na brisa noturna. Ele andou ereto antes, como um homem deveria andar, mas gradualmente, conforme se distanciava da barraca, sua postura se alterava. Seu torso começava, quase imperceptivelmente, a inclinar-se, e seus membros, a encolher.

Num mundo muito distante, no espaço exterior, a criatura centípede que era George Campbell segurou em seu seio um deus cujos adornos eram vermelhos como sangue, e correu, tremendo como um inseto, por um salão de cores do arco-íris, passando depois por portais massivos, direto pra a brilho forte dos sóis alienígenas.

Rondando entre as árvores da Terra, numa atitude que sugeria o tropegar bisonho de um licantropo, o corpo de George Campbell cumpria um destino sem mente. Dedos longos, de garras nas pontas, puxavam folhas odoríferas do tapete que cobria a floresta, conforme movia-se em direção a uma ampla expansão de água cintilante.

No mundo distante e extragalático do povo verme, George Campbell movia-se entre blocos ciclópicos de cantaria negra, descendo por longas avenidas, florida de samambaias, erguendo nas patas o deus vermelho e globular.



Foi ouvido um grosseiro berro de animal num arbusto próximo ao lago cintilante da Terra, onde a mente de uma criatura verme habitava um corpo onde o instinto imperava. Os dentes humanos se enfiaram pela suave pelagem animal, rasgaram a negra carne animal. Uma pequena raposa prateada enfiou suas presas num pulso humano e peludo, buscando uma frenética retaliação, e agitava-se aterrorizada com o derramar do sangue. Lentamente, o corpo de George Campbell levantou-se, sua boca suja de sangue fresco. Com os membros superiores gingando de modo esquisito, moveu-se na direção das águas do lago.

Conforme a criatura mutável que era George Campbell rastejava entre os blocos negros de pedra, milhares de formas de vermes prostravam-se na poeira cintilante diante dele. Um poder divino parecia emanar de seu corpo trêmulo, enquanto ele movia-se num ritmo lento e ondulante, em direção ao trono de um império espiritual que transcendia as soberanias da Terra.

Um caçador, rondando esgotado pela densa floresta na Terra, próximo à barraca onde a criatura verme havia habitado o corpo de George Campbell, veio às águas cintilantes do lago, e discerniu algo escuro, flutuando ali. Havia estado perdido na floresta a noite toda, e a fadiga o envolvia como um manto de chumbo sob a luz pálida da manhã.

Porém, aquela forma era um desafio que ele não podia ignorar. Movendo-se até a borda da água, ajoelhou-se no barro mole, e esticou-se até a coisa que flutuava. Lentamente, a puxou até a praia.

Muito distante no espaço experior, a criatura verme empunhando o deus vermelho e brilhante ascendeu a um trono que brlhava como a constelação Cassiopeia, sob uma abóboda alienígena de hipersóis. A poderosa divindade que ele erguia energizava seu corpo de verme, consumindo no fogo branco de uma espiritualidade supramundana, tudo que lhe restava de animal.

Na Terra, o caçador contemplou, num horror impronunciável, a face escurecida e peluda do homem afogado. Era uma face bestial, de feições repulsivamente antropoides, e de sua boca deformada e contorcida, escorria um icor negro.



“Aquele que buscou seu corpo pelos abismos do Tempo ocupará um corpo que não lhe obedecerá,” disse o deus vermelho. “Nenhuma cria de Yekub pode controlar o corpo de um humano.”

“Por toda a Terra, as criaturas vivas rasgam umas às outras, e banqueteiam-se, numa indizível crueldade, de seus próximos e parentes. Nenhuma mente de verme pode controlar um corpo humano bestial, quando este anseia a selvageria. Apenas mentes humanas, instintivamente condicionadas, no decorrer de dezenas de milhares de gerações, podem governar os instintos humanos. Seu corpo irá destruir a si mesmo, na Terra, buscando o sangue de seus parentes animais, buscando a água fria onde podia rolar com prazer. Buscará a inevitável destruição, pois o instinto da morte é mais poderoso nele que os instintos da vida, e destruir-se-á, buscando retornar ao barro de onde proveio.”

Assim falou o globuloso e vermelho deus de Yekub, vindo de um segmento distante do continuum do espaço-tempo, dirigindo-se a George Campbell, enquanto este último, com todos os desejos humanos purgados, sentava-se no trono e governou então um império de vermes, mais sábia, gentil e benevolamente que os homens da Terra podem algum dia governar um império de homens.






terça-feira, 18 de outubro de 2011

O DESAFIO DO ALÉM - Parte III


História Colaborativa escrita por C. L. MooreA. MerrittH. P. LovecraftRobert E. Howard e Frank Belknap Long
Traduzida por Arthur Ferreira Jr.'.



Terceira Parte: 




[H. P. Lovecraft]

Conforme a luz dos sóis safiras, borrada pela névoa, tornava-se cada vez mais intensa, os contornos do globo à frente desfaziam-se e dissolviam-se num caos efervescente. Sua palidez, movimentos e música mesclavam-se com a névoa que engolfava – alvejando-a de uma cor de aço esbranquiçado, pondo-a em movimento ondulante. E também os sóis safiras, derretiam imperceptivelmente, espalhando-se pelo infinito acinzentado daquela pulsação amorfa.

Enquanto isso, a sensação de movimento para frente e para fora tornou-se intolerável, incrível e cosmicamente rápido. Todos os padrões de velocidade conhecidos na Terra pareciam lentos diante daquilo, e Campbell soube que um voo daqueles, na realidade física, significaria morte instantânea para um ser humano. Mesmo naquele estado – naquela estranha e infernal hipnose ou pesadelo – a impressão quase-visual de ricochete quase paralisava sua mente. Embora não houvessem pontos verdadeiros de referência no vácuo cinzento e pulsante, ele sabia que começava a aproximar-se, e a superar, a própria velocidade da luz. Finalmente, sua consciência se apagou – e uma misericordiosa escuridão engoliu a tudo.

Tudo muito súbito, e em meio à mais impenetrável escuridão, pensamentos e ideias mais uma vez vieram a George Campbell. Quantos momentos – ou anos – ou eternidades haviam se passado desde seu voo pelo grande vácuo, não conseguiria estimar. Ele só sabia que parecia estar descansado e sem dor alguma. De fato, a ausência de toda sensação física era a qualidade definidora de sua condição. Fazia com que mesmo a negritude parece menos solidamente negra – sugerindo que ele era agora uma inteligência incorpórea, num estado além dos sentidos físicos, e não um ser corpóreo com sentidos privados de seus objetos de percepção costumeiros. Ele conseguia pensar com agudeza e rapidez – quase sobrenaturais – embora ainda não pudesse apreender de fato a sua situação.

Meio por instinto, percebeu que não estava em sua própria barraca. De fato, poderia ter acordado lá, de um pesadelo, para um mundo igualmente negro, no escuro; mas ele sabia que não se tratava disso. Não havia nenhum colchonete debaixo de si – ele não tinha mãos para sentir os cobertores e lona e lanterna que deveriam estar ao seu redor – não havia sensação alguma de frio no ar – nenhuma porta através da qual pudesse vislumbrar a pálida noite lá fora … algo estava errado, assustadoramente errado.

Ele tentou relembrar o passado, e pensou no cubo fluorescente que o havia hipnotizado – naquele momento, e no que havia se seguido. Ele sabia que sua mente havia se movido para além, e não conseguia retroceder. Naquele último momento, houve um medo, um pânico chocante – um medo subconsciente, além até mesmo daquele causado pela sensação do voo demoníaco. Vinha de algum vago vislumbre, ou lembrança remota – do quê exatamente, não podia dizer de imediato. Em algum lugar, lá no fundo de suas mente, ele pareceu encontrar uma qualidade nebulosamente familiar no cubo – e essa familiaridade vinha repleta de terror. Agora, ele tentava lembrar-se que familiaridade e terror eram esses.

Pouco a pouco, a coisa ficou óbvia. Um dia – há muito tempo, em seu trabalho geológico – havia lido sobre algo como aquele cubo. Tinha a ver com aqueles discutíveis e perturbadores fragmentos de argila chamados de Tabuletas de Eltdown, escavados de uma camada pré-carbonífera, no sul da Inglaterra, trinta anos antes. Seu formato e marcas eram tão estranhos, que uns poucos eruditos clamaram ser artificiais, e fizeram conjeturas loucas sobre elas e suas origens. Vinham claramente de uma era em que nenhum ser humano poderia ter existido no globo – porém seus contornos e figuras eram terrivelmente enigmáticos. Foi assim que conseguiram sua fama.



Não foi, porém, nos escritos de algum cientista sóbrio, que Campbell vira referência a um cristal que envolvia um disco. A fonte era de reputação bem mais fraca, e infinitamente mais vívida. Por volta de 1912, um clérigo de Sussex, profundamente erudito e de inclinações ocultistas – o Reverendo Arthur Brooke Winters-Hall – havia professado identificar nas marcas nas Tabuletas de Eltdown alguns dos assim-chamados “hieróglifos pré-humanos” persistentemente adorados e esotericamente legados por certos círculos místicos, e publicou, às suas próprias custas, o que ele dizia ser uma “tradução” das primais e estarrecedoras “inscrições” – uma “tradução” ainda citada com muita frequência e seriedade por escritores ocultistas. Nesta “tradução” – uma brochura surpreendentemente longa, em vista do limitado número de “tabuletas” existentes – ocorria uma narrativa, supostamente de autoria pré-humana, contendo a dita referência, agora assustadora.

Dizia a história que habitou num mundo – e eventualmente, em incontáveis outros mundos – do espaço exterior, uma poderosa ordem de seres vermiformes, cujas realizações, e cujo controle da natureza superavam qualquer coisa dentro dos limites da imaginação terrestre. Eles haviam dominado a arte da viagem interestelar logo no começo de sua carreira, e haviam populado todos os planetas habitáveis em sua própria galáxia – matando as raças que neles encontravam.

Além dos limites de sua própria galáxia – que não era a nossa – não podiam navegar em pessoa; porém, em sua busca pelo conhecimento de todo o espaço e todo o tempo, descobriram um meio de ultrapassar certos golfos transgaláticos, usando suas mentes. Inventaram certos objetos peculiares – cubos estranhamente energizados, feitos de um cristal curioso, contendo talismãs hipnóticos, e encerrados em envelopes esféricos resistentes ao espaço, consistindo de uma substância desconhecida – objetos que podiam ser forçosamente expelidos além dos limites de seu universo, e que reagiriam somente à atração da matéria sólida e fria.

Esses cubos, dos quais uns poucos necessariamente aterrissariam em vários mundos habitados, nos universos exteriores, formavam as pontes etéricas necessárias para a comunicação mental. A fricção atmosférica incinerava o envelope protetor, deixando o cubo exposto e sujeito à descoberta por mentes inteligentes do mundo onde havia caído. Por sua própria natureza, o cubo atrairia e chamaria a atenção. Isto, em conjunto com a ação da luz, seria suficiente para pôr suas propriedades especiais em funcionamento.

A mente que notasse o cubo seria atraída pelo poder do disco, e seria enviado num rastro de energia obscura para o lugar de onde o disco havia vindo – o remoto mundo dos exploradores espaciais vermiformes, além de estupendos abismos galáticos. Recebida em uma das máquinas a qual o cubo estava sintonizado, a mente capturada permaneceria nela suspensa, sem corpo ou sentidos, até que fosse examinada pela raça dominante. Então, através de um processo obscuro de intercâmbio, seria esvaziada de todo conteúdo. A mente do investigador agora ocuparia a estranha máquina, enquanto a mente cativa ocuparia o corpo vermiforme do interrogador. E então, em outro intercâmbio, a mente do interrogador saltaria pelo espaço sem fim, chegando ao corpo vazio e inconsciente da mente cativa, no mundo transgalático – animando o receptáculo alienígena como melhor conseguisse, e explorando o mundo alienígena, disfarçado de um de seus habitantes.


Quando isto era feito com o propósito exploratório, o aventureiro usaria o cubo e seu disco para realizar o retorno – e às vezes, a mente cativa seria restaurada com segurança a seu próprio mundo remoto. Nem sempre, porém, a raça dominante era tão gentil. Às vezes, quando uma raça potencialmente importante, capaz de viagem espacial, era encontrada, o povo vermiforme empregaria o cubo para capturar e aniquilar mentes aos milhares, e extirparia a raça, por razões diplomáticas – usando as mentes exploradas como agentes da destruição.

Em outros casos, seções do povo vermiforme ocupavam permanentemente um planeta transgalático – destruindo as mentes cativas e executando os habitantes remanescentes, preparando-se para invadir corpos desconhecidos. Porém, nunca a civilização progenitora podia ser totalmente duplicada; já que a novo planeta poderia não conter todos os materiais necessários para as artes da raça vermiforme. Por exemplo, os cubos só podiam ser feitos no planeta natal.

Apenas uns poucos dos inumeráveis cubos enviados chegavam a aterrissar e funcionar num mundo habitado – já que não existia mira naquele processo além da visão e do conhecimento. Apenas três, dizia a história, haviam aterrissado em mundos populados de nosso próprio universo. Um desses havia atingido um planeta próximo aos limites da galáxia, há dois trilhões de anos, enquanto outro havia se alojado, três bilhões de anos atrás, num mundo próximo do centro da galáxia. O terceiro – e o único conhecido por ter invadido o sistema solar – havia alcançado nossa própria terra, há 150 milhões de anos.

Era com esse tipo de coisa que a “tradução” do dr. Winters-Hall lidava, em sua maior parte. Quando o cubo atingiu a Terra, escreveu ele, a espécie terráquea governante era uma enorme raça de formato cônico, que superava todas as outras que vieram antes, em mentalidade e realizações. Esta raça era tão avançada, que na verdade enviava mentes adiante, tanto no espaço quanto no tempo, para explorar o cosmos, reconhecendo portanto algo do que havia acontecido, quando o cubo caíra do céu e certos indivíduos sofreram mudanças mentais, após contemplar o interior do objeto.

Percebendo que os indivíduos modificados representavam mentes invasoras, os líderes da raça ordenaram sua destruição – mesmo ao custo das mentes deslocadas, exiladas no espaço alienígena. Eles já tinham experiências com transições ainda mais bizarras. Quando, através da exploração mental do espaço e do tempo, formaram ideia vaga do que era o cubo, ocultaram cuidadosamente a coisa da luz e da visão dos seres, guardando-o como uma ameaça. Não quiseram destruir uma coisa tão rica de possibilidades experimentais posteriores. Aqui e ali, algum aventureiro audaz e inescrupuloso ganharia acesso furtivo ao cubo e provaria de seus perigosos poderes, apesar das consequências – porém todos os casos eram descobertos e resolvidos de maneira drástica e segura.


Desta interação maligna, o único resultado ruim foi que a raça vermiforme no espaço exterior aprendeu, de seus novos exilados, o que havia acontecido com seus exploradores na terra, e concebeu um violento ódio do planeta e todas as suas formas de vida. Teriam eliminado toda a sua população se fosse possível, e de fato, enviaram cubos adicionais pelo espaço, na insana esperança de que, por acidente, atingisse lugares desguardados – mas esse acidente nunca chegou a acontecer.

Os seres terrestres de formato cônico mantiveram o único cubo existente num santuário especial, como relíquia e base de exploração, até que, depois de eras, o cubo se perdeu em meio ao caos da guerra e da destruição da grande cidade polar onde era guardado. Quando, cinquenta milhões de anos mais tarde, os seres enviaram suas mentes para mais adiante no tempo, para o futuro infinito, para evitar um perigo inominado vindo do subterrâneo, o destino do sinistro cubo vindo do espaço ficou sendo desconhecido.

De acordo com o devotado ocultista, era o que diziam as Tabuletas de Eltdown. O que agora tornava seu relato ainda mais obscuramente aterrorizante a Campbell, era a precisão e as minudências com que o cubo alienígena era descrito. Cada detalhe determinado – dimensões, consistência, disco central hieroglifado, efeitos hipnóticos. Como estava pensando no caso, repetidamente, nas trevas de sua estranha situação, começou a imaginar se, toda a sua experiência com o cubo de cristal – de fato, a própria existência desse cubo – não era um pesadelo, trazido por alguma aberrante memória subconsciente daquela leitura extravagante e charlatã. Mesmo assim, se era o caso, o pesadelo ainda estava em andamento; já que sua presente situação, aparentemente incorpórea, não tinha nada de normal.

Campbell não conseguia estimar o tempo consumido nesse relembrar e refletir. Tudo em seu estado era tão irreal, que as dimensões e medidas normais tornavam-se sem sentido. Parecia que passara uma eternidade, mas talvez não muito houvesse passado, antes que a súbita interrupção ocorresse. O que aconteceu foi tão estranho e inexplicável quanto o negrume em que estava mergulhado até então. Era uma sensação – da mente, e não do corpo – e num ímpeto, Campbell sentiu seus pensamentos atraídos ou sugados, além de seu controle, de modo tumultuoso e caótico.

As memórias surgiam, irresponsáveis e irrelevantes. Tudo que ele sabia – todo o seu histórico pessoal, tradições, experiências, erudição, sonhos, ideias e inspirações – fluíram abruta e simultaneamente, numa velocidade e abundância entontecedoras, que logo o deixou inapto a registrar qualquer conceito separado. A totalidade de seus conteúdos mentais tornou-se uma avalanche, uma cascata, um vórtex. Era tão horrível e vertiginoso quanto seu voo hipnótico pelo espaço, quando o cubo de cristal o puxara. Por fim, aquilo drenou-lhe a consciência, e trouxe o alívio do esquecimento.


Outro branco imensurável – e então um lento gotejar de sensações. Naquele momento, eram sensações físicas, e não mentais. Uma luz safira, e um trovejar baixo de um som distante. Impressões táteis – podia perceber que estava deitado, ao comprido, sobre algo, embora houvesse uma estranheza perturbadora no que sentia quanto à sua postura. Não conseguia reconciliar a pressão da superfície que o apoiava, com seu próprio contorno – ou mesmo com os contornos da forma humana. Tentou mover seus braços, mas não achou reação definida a essa tentativa. Ao invés disso, houveram contorções nervosas mínimas e inefetivas, por toda a área que parecia marcar seu corpo.

Tentou abrir seus olhos direito, mas achou-se incapaz de controlar o mecanismo destes. A luz safira vinha de modo difuso, nebuloso, e não podia ser voluntariamente focada sob definição. Porém, gradualmente, imagens visuais começaram a escorrer, de maneira curiosa e indecisiva. Os limites e qualidades da visão não eram aqueles com que estava acostumado, mas podia correlacionar de jeito vago com as sensações que havia conhecido como visão. Conforme esta sensação adquiria algum grau de estabilidade, Campbell percebeu que ainda devia estar preso ao tal pesadelo.

Parecia estar num aposento de considerável extensão – de altura média, mas com uma área bem maior, proporcionalmente falando. Em cada lado – e ele, ao que parece, podia enxergar todos os quatro lados ao mesmo tempo – viam-se fendas elevadas e estreitas, que pareciam servir como portas e janelas ao mesmo tempo. Haviam mesas ou pedestais individuais, mas nenhuma mobília de natureza e proporções normais. Pelas fendas, fluíam jorros de luz safira, e além destas, podiam ser enxergados, de modo nebuloso, os lados e telhados de prédios fantásticos, similares a cubos aglomerados. Nas paredes – nos painéis verticais entre as fendas – estavam estranhas marcas de caráter estranhamente inquietante. Passou-se algum tempo antes que Campbell compreendesse o porquê dessa inquietação tamanha – ele as havia visto antes, em exemplares repetidos, eram exatamente como os hieróglifos do disco dentro do cubo de cristal.



O verdadeiro elemento digno do pesadelo em que se encontrava, porém, era algo maior que isto. Começou com a coisa viva que começava a entrar através de uma das fendas, avançando deliberadamente na direção dele, trazendo uma caixa de metal, de proporções bizarras e superfícies vítreas, espelhadas. Pois esta coisa não era nada humano – nada terráqueo – não era nada próximo dos mitos e sonhos da humanidade. Era um gigantesco verme ou centípede de cor cinza clara, tão grande como um homem, e de comprimento duas vezes maior, exibindo uma cabeça discoide, aparentemente sem olhos, orlada de cílios cercando um orifício central púrpura. Ela deslizava com auxílio de seus pares traseiros de patas, com a parte anterior levantada na vertical – as patas, ou pelo menos dois pares delas, servindo como braços. Ao longo de sua coluna espinhal, havia uma curiosa crista púrpura, e uma cauda abrindo como um leque, composta de uma membrana cinzenta, terminava aquele corpanzil grotesco. Havia um anel de cravos vermelhos e flexíveis ao redor de seu pescoço, e das contorções destes, vinham sons de cliques fanhosos, formando ritmos métricos e deliberados.

Aqui, de fato, o pesadelo alienígena chegava a seu auge – era uma fantasia caprichosa em seu ápice. Porém mesmo esta visão de delírio não fora o que fez com que George Campbell caísse uma terceira vez na inconsciência. Foi preciso mais uma coisa – aquele toque final e insuportável. Conforme o verme inominado avançava com sua caixa cintilante, o homem reclinado vislumbrou naquela superfície espelhada, aquilo que deveria ser seu próprio corpo. Ainda assim – mesmo verificando suas sensações desordenadas e incomuns – não era seu próprio corpo que via refletido no metal polido. Ao invés disso, via o corpanzil repugnante, pálido e cinzento de um dos grandes centípedes.





CONTINUA ...

E na próxima postagem, Robert E. Howard (Conan) e Frank Belknap Long (Os Cães de Tíndalos) finalizam O Desafio do Além!

O original em inglês pode ser visto aqui:
http://en.wikisource.org/wiki/The_Challenge_from_Beyond


A primeira e segunda partes do conto, em português, podem ser encontradas nesta postagem:
http://dominiopublicano.blogspot.com/2011/10/o-desafio-do-alem-partes-i-e-ii.html

sábado, 15 de outubro de 2011

O DESAFIO DO ALÉM - Partes I e II


História Colaborativa escrita por C. L. MooreA. MerrittH. P. LovecraftRobert E. Howard e Frank Belknap Long
Traduzida por Arthur Ferreira Jr.'.




Primeira e Segunda Partes


[C.L. Moore]


George Campbell abriu seus olhos turvos de sono à escuridão, e achou-se fitando para além da abertura da barraca, contemplando a pálida noite de agosto por alguns minutos, antes de acordar o suficiente para chegar a imaginar o que o havia despertado. Havia algo no ar claro e penetrante daquelas florestas canadenses que era tão potente como soporífero, como qualquer droga do gênero. Campbell ficou quieto por um momento, afundando lentamente de volta às deliciosas fronteiras do sono, consciente de uma exaustão exótica, uma incomum sensação de músculos esgotados, e agora relaxados ao ponto da mais perfeita imobilidade. Afinal de contas, aqueles eram os momentos mais prazerosos das férias – após o trabalho, descansar na clara e doce noite da floresta.


  Luxuriosamente, conforme sua mente afundava de volta ao esquecimento, ele assegurou-se mais uma vez que três longos meses de liberdade estavam à frente – liberdade de cidades e monotonia, liberdade da pedagogia e da Universidade e de estudantes sem qualquer rudimento de interesse na geologia com a qual ele ganhava seu pão diário, onde dava lições que caíam em ouvidos surdos. Liberdade de – 
 
     A sonolência deliciosa desfez-se num colapso abrupto, sobre ele. Em algum lugar lá fora, o som de latas arranhando latas rasgou sua paz. George Campbell sentou-se, tremendo, e procurou a lanterna. Então riu e deixou a lanterna de lado, forçando seus olhos pela escuridão da meia-noite lá fora, onde entre as latas que desabavam de sua pilha de suprimentos, um pequeno, anônimo e escuro animal noturno rondava. Ele esticou um braço e catou entre as pedras perto da abertura da barraca, alguma coisa que jogar no bicho. Seus dedos se fecharam sobre uma grande pedra, e ele puxou sua mão para a atirar.


  Mas nunca chegou a atirar. Era uma coisa tão estranha que ele havia achado no escuro.  Quadrada, de cristal polido, obviamente artificial, de cantos rombudos. A estranheza da superfície rochosa parecia tão notável a seus dedos, que ele buscou mais uma vez a lanterna, e focalizou o facho sobre a coisa que empunhava.

  Toda e qualquer sonolência o abandonou quando ele viu o que havia pego ao tatear despreocupado. Era tão claro como pedra de cristal, aquele cubo tão liso e estranho. Sem dúvida, era quartzo, mas não em sua forma cristalizada hexagonal padrão. De alguma forma – ele não conseguia imaginar através de que método – o quartzo havia sido moldado no formato de um cubo perfeito, cerca de dez centímetros de largura em cada face gasta. Pois a coisa era incrivelmente gasta. O cristal duríssimo havia sido manuseado de tal modo que suas arestas quase haviam sumido, e a coisa começava a assumir os contornos de uma esfera. Eras e eras de desgaste, anos além de qualquer contagem, deveriam ter passado por aquela coisa estranha e límpida.

 
     Porém, o mais curioso de tudo era que aquele formato que ele mal podia vislumbrar, no âmago do cristal. Pois incrustado em seu centro, jazia um pequeno disco de uma substância pálida e inominada, mostrando caracteres gravados bem fundo em sua superfície protegida pelo quartzo. Caracteres em formato de calçadeira, vagamente reminiscentes da escrita cuneiforme.


George Campbell franziu a testa e debruçou-se mais de perto sobre este pequeno enigma em suas mãos, refletindo em vão sobre ele. Como uma coisa como essa poderia estar incrustada num cristal de rocha pura? Uma memória remota flutuou por sua mente, de lendas antigas que chamavam os cristais de quartzo de gelo congelado tão duramente que seria impossível derretê-lo de volta. Gelo – e caracteres cuneiformes – sim, esse tipo de escrita não se originara entre os sumérios, que desceram do norte, nos mais remotos inícios da história, para estabelecer-se no primitivo Vale Mesopotâmico? Então o bom senso retomou o controle sobre Campbell, fazendo-o rir. O quartzo, obviamente, fora formado nos primeiros períodos geológicos da Terra, quando não h avia nada senão calor e pedra em ebulição. O gelo não viria por dezenas de milhões de anos, depois desta coisa poder ter se formado.


E ainda assim – aquela escrita. Feita pelo homem, certamente, embora seus caracteres fossem desconhecidos, exceto por sua vaga ligação com formatos cuneiformes. Ou num mundo paleozoico, poderiam ter existido coisas com uma linguagem escrita, que poderiam ter gravado essas cunhas enigmáticas sobre o disco envolvido pelo quartzo, que ele agora tinha nas mãos? Ou – poderia uma coisa como essa ter caído como meteoro, vinda do espaço, sobre a rocha em formação de um mundo ainda derretido? Poderia – 


Conteve-se com firmeza, podia sentir suas orelhas pegando fogo com a luridez de sua própria imaginação. O silêncio e a solidão e a coisa esquisita em suas mãos estavam conspirando para brincar com seu senso comum. Ele deu de ombros e pôs o cristal na borda de seu colchão de palha, desligando a luz. Talvez a manhã e uma cabeça descansada trariam a ele a resposta às perguntas que agora pareciam insolúveis.


Mas, o sono não veio com tanta facilidade. No mínimo, porque lhe parecera que, assim que ele desligara a luz, o pequeno cubo reluzira por um momento, como se emitisse luz própria sobre a escuridão que o cercava. Ou talvez ele houvesse se enganado quanto a isto. Talvez fossem apenas seus olhos ofuscados, que pareciam ter enxergado luz abandonar com relutância o cristal, brilhando nas profundezas enigmáticas daquela coisa, com uma persistência anômala.


Ele ficou ali, inquieto, por um bom tempo, repassando as perguntas sem resposta, uma a uma, em sua mente. Havia algo naquele cubo de cristal, vindo de um passado imensurável, talvez vindo da aurora da história, que constituía um desafio que não o deixaria dormir.






[A. Merritt]


Ficou ali, pareceu-lhe, por horas a fio. Fora a luz remanescente, a luminescência que parecia tão relutante em apagar, que manteve sua mente desperta. Era como se algo no coração do cubo houvesse acordado, espreguiçado e ficado subitamente alerta… e ciente da presença dele.


  Era pura fantasia, aquilo. Esticou-se impaciente e direcionou um facho de luz sobre o relógio. Perto da uma da madrugada; mais três horas, e viria o nascer do sol. O facho se deslocou e focalizou-se no cubo de cristal, quente. Ele o manteve ali por minutos, desviava o olhar, e então continuava a contemplá-lo.


Não havia mais dúvidas. Conforme seus olhos acostumavam-se à escuridão, ele percebia que o estranho cristal estava brilhando, com minúsculas e fugitivas luzes, lá no fundo dele mesmo, como fios relampejantes de cor de safira. Ficavam lá no centro, e pareciam provir do disco pálido, com suas marcas perturbadoras. E o próprio disco começava a crescer… as marcas, começavam a mudar de forma… o cubo crescia… seria uma ilusão tecida pelos minúsculos relâmpagos…


Ouviu um ruído. Era quase um fantasma de ruído, como espectros das cordas de uma harpa, dedilhados por mãos fantasmagóricas. Debruçou-se para mais perto. O ruído vinha do cubo…

De repente, guinchos no matagal, um borrão de corpos e um berro agonizante, como uma criança moribunda, rapidamente silenciada. Alguma pequena tragédia da natureza, de predadores e presas. Ele apareceu do lado de fora, para ver o que havia provocado aquilo, mas não conseguia enxergar nada. Mais uma vez desligou a lanterna, e olhou na direção da tenda. No chão, um pálido brilho azul. Era o cubo. Ele abaixou-se para pegá-lo; e então, obedecendo a algum aviso obscuro, retirou a mão.


Então mais uma vez, viu o brilho moribundo. Os minúsculos relâmpagos safira, precisos e reluzentes, voltando ao disco de onde se originavam. Nenhum som saía do cubo.


Sentou-se, observando a luminescência crescer e desaparecer, crescer e desaparecer, mas a cada ciclo, ficando mais tênue. Ocorreu-lhe que dois elementos eram necessários para produzir o fenômeno. O raio elétrico em si, e sua própria atenção fixa. Sua mente deveria viajar junto com o raio, fixar-se sobre o coração do cubo, fazer o pulsar desse coração acelerar, até que… até que, o quê?


Sentiu um calafrio no espírito, como se estivesse em contato com alguma coisa alienígena. Era alienígena, tinha certeza; não era desta Terra. Não da vida da Terra. Recuperou a compostura, pegou o cubo e levou-o para dentro da barraca. Não era nem quente, nem frio; exceto pelo peso, não dava sequer para sentir que o segurava. Colocou-o sobre a mesa, mantendo a tocha longe do cubo; então virou-se para a porta da barraca e a fechou.



Voltou à mesa, puxou a cadeira de acampamento, e focou o facho direto no cubo, focando-o o máximo que conseguia, sobre o coração do objeto. Enviou toda a sua vontade, toda a sua concentração, junto com o facho; focando vontade e visão sobre o disco, enviados junto com a luz.


Como se comandados, os relâmpagos safira entraram em ação. Espalhavam-se do disco para o corpo do cubo de cristal, e então retrocediam, banhando o disco e as marcas. Mais uma vez estas começavam a mudar, contorcendo-se, movimentando-se, avançando e retraindo naquele brilho azul. Não eram mais cuneiformes. Eram coisas… objetos.


Ouviu a música murmurante, as cordas da harpa dedilhada. Mais alto, mais alto ficou o som, e agora todo o corpo do cubo vibrava naquele ritmo. A superfície do cristal derretia, tornando-se nebulosa, como se formada por bruma de diamante. E o disco em si, estava crescendo… as formas contorcendo-se, dividindo e multiplicando, como se alguma porta houvesse se aberto, e por ela, pelotões de fantasmas invadissem. E quanto mais brilhantes as formas, mais brilhante ainda ficava a luz pulsante.


Ele sentiu um pânico repentino, tentou retomar o olhar e a vontade, derrubou a lanterna. O cubo já não tinha necessidade do raio de luz… e ele não conseguia virar-se… não conseguia virar-se? Mais que isso, sentia-se sugado para o disco, que agora tornava-se um globo, dentro do qual formas inomináveis dançavam ao ritmo de uma música que banhava o globo numa radiância sólida.


Não havia mais barraca alguma. Havia só uma vasta cortina de bruma cintilante, e atrás dela, brilhando, o globo… Sentiu-se puxado através da bruma, sugado por ela como se por um poderoso túnel de vento, direto para o globo.