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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

UBBO-SATHLA


Clark Ashton Smith
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.






Pois Ubbo-Sathla é a fonte e o produto final. Antes de Zhothaqquah, ou Yok-Zothoth, ou Kthulhut descerem das estrelas, Ubbo-Sathla já habitava os pântanos escaldantes da Terra recém-criada: uma massa sem cabeça ou membros, gerando as salamandras amorfas da época primordial e os pavorosos protótipos da vida terrena... E toda a vida terráquea, assim é dito, deverá retornar por fim, através do grande círculo do tempo, a Ubbo-Sathla.

O Livro de Eibon


Paul Tregardis encontrou o cristal leitoso numa pilha de restos de muitas terras e eras. Havia entrado na loja do vendedor de curiosidades, seguindo um impulso sem objetivo, sem qualquer objetivo específico em mente que não a distração ociosa de olhar e tocar uma miscelânia de coisas reunidas de muitos locais distantes. Passando os olhos pelo material, sem método algum, seu atenção foi atraída por um brilho embotado em uma das mesas; e extraiu a esquisita pedra em formato de orbe de sua posição sombria e atulhada entre um pequeno e feio ídolo asteca, o ovo fossilizado de uma moa, e um obsceno fetiche nigeriano, feito de madeira negra.

A coisa tinha mais ou menos o tamanho de uma pequena laranja, e era levemente aplanada nas extremidades, como um planeta em seus polos. Aquilo intrigava Tregardis, pois não era um cristal comum, sendo nebuloso e mutável, com um brilho intermitente em seu âmago, como se fosse alternadamente iluminado e escurecido a partir de dentro. Segurando-o à luz da janela cheia de neve, estudou-o um pouco, sem conseguir determinar o segredo daquela singular e regular alternação. Sua confusão logo foi complicada por uma sensação cada vez maior de vaga e irreconhecível familiaridade, como se houvesse visto a coisa antes, em circunstâncias agora totalmente esquecidas.

Chamou o vendedor de curiosidades, um hebreu diminuto de ar de antiguidade empoeirada, que dava a impressão de estar perdido em considerações comerciais, em alguma rede de devaneios cabalísticos.

“Pode dizer-me alguma coisa sobre isto?”

O vendedor contraiu de maneira indescritível e simultânea os ombros e as sobrancelhas.

“É bastante antigo – paleogênico, poder-se-ia dizer. Não posso dizer muito, pois sabe-se pouco. Um geólogo encontrou-o na Groelândia, sob o gelo glacial, em terreno mioceno. Quem sabe? Pode ter pertencido a algum feiticeiro da Thule primeva. A Groelândia era uma região quente e fértil sob o sol da época miocena. Sem dúvida é um cristal mágico; e pode-se ter estranhas visões em seu âmago, caso seja observado por tempo suficiente.

Tregardis ficou bastante surpreso; pois a sugestão aparentemente fantástica do vendedor trouxe à mente suas próprias sondagens de um ramo da sabedoria obscura; em particular lembrava-se do Livro de Eibon, aquele volume esquecido e oculto tão estranho e raro, que diz-se ter sido passado adiante através de uma série de múltiplas traduções, a partir de um original pré-histórico escrito no idioma perdido da Hiperbórea. Tregardis, com bastante dificuldade, obtera a versão francesa – cópia que estivera em posse de muitas gerações de feiticeiros e satanistas – mas nunca conseguira encontrar o manuscrito grego a partir do qual aquela versão fora derivada.

O original remoto e fabuloso era tido como a obra do grande mago hiperbóreo que lhe dava o título. Era uma coleção de mitos sombrios e ominosos, de liturgias, rituais e encantamentos tão malignos quanto esotéricos. Não sem sentir calafrios, no decorrer dos estudos que uma pessoa comum acharia mais que singular, Tregardis havia feito comparações do volume francês com o temível Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred. Encontrara muitas correspondências de significância bastante sombria e aterradora, junto com vários dados proibidos que eram desconhecidos do árabe ou omitidos por ele... ou por seus tradutores.

Seria isso o que estava tentando relembrar, pensou Tregardis? – a referência breve e casual no Livro de Eibon a um cristal nebuloso que fora propriedade do mago Zon Mezzamalech, em Mhu Thulan? É claro, era tudo fantástico demais, hipotético demais, incrível demais – porém Mhu Thulan, a porção norte da antiga Hiperbórea, supostamente correspondia mais ou menos à Groelândia moderna, que antes seria uma península do continente principal. Será que a pedra em suas mãos, por um acaso fabuloso, seria o cristal de Zon Mezzamelech?

Tregardis sorriu consigo mesmo, diante da ironia que era sequer conceber essa noção absurda. Tais coisas não aconteceriam – pelo menos não na Londres contemporânea; e de qualquer forma, muito provavelmente o Livro de Eibon não passava de fantasia supersticiosa. Mesmo assim, havia algo no cristal, que continuava a tentá-lo e persuadi-lo. Terminou por comprar o cristal, por um preço razoavelmente moderado. A soma foi declarada pelo vendedor e paga pelo comprador, sem qualquer barganha.

Com o cristal no bolso, Paul Tregardis apressou-se em voltar a seu alojamento, ao invés de continuar o passeio de lazer. Instalou o globo leitoso em sua mesa de trabalho, onde ficou firme sobre uma de suas extremidades oblatas. E então, ainda sorrindo com o próprio absurdo, pegou o manuscrito em papel de pergaminho amarelado, o Livro de Eibon, de seu lugar numa coleção um tanto abrangente de literatura incomum. Abriu a capa de couro vermiculado, de fechos de aço manchado, e leu para si mesmo, traduzindo a partir do francês arcaico, o parágrafo que referia-se a Zon Mezzamelech:


“Este mago, bastante poderoso entre os feiticeiros, encontrara uma pedra nebulosa, semelhante a um orbe, um tanto achatada nas extremidades, na qual podia contemplar muitas visões do passado terreno, e até mesmo dos começos da Terra, quando Ubbo-Sathla, a fonte incriada, repousa vasta e inchada e fermentescente em meio à geleia vaporosa... Mas daquilo que chegou a contemplar, Zon Mezzamalech deixou poucos registros; e as pessoas dizem que ele desapareceu de maneira desconhecida; e depois disso o cristal nebuloso se perdera.”

Paul Tregardis colocou o manuscrito de lado. Mais uma vez, havia algo que o tentava e seduzia, como um sonho perdido ou uma memória condenada ao esquecimento. Impelido por uma sensação que não ponderou ou questionou, sentou-se diante da mesa e começou a fitar resoluto as profundezas da orbe gelada e nebulosa. Sentia uma expectativa que, de alguma forma, era tão familiar, uma parte de sua consciência tão permeante, que nem chegou a dar-lhe um nome.

Minuto após minuto, ficou ali sentado, observando o reluzir e apagar alternados da misteriosa luz no âmago do cristal. Quase que imperceptivelmente, foi abatendo-se sobre ele uma sensação de dualidade onírica quanto à sua pessoa e seu ambiente. Ele ainda era Paul Tregardis – mas também era outro alguém: o aposento era o do seu apartamento em Londres – mas também uma câmara em algum lugar estrangeiro, embora bastante conhecido. E em ambos os lugares, ele fitava com resolução o mesmo cristal.

Após um ínterim, sem surpresa da parte de Tregardis, o processo de reidentificação tornou-se completo. Ele sabia que era Zon Mezzamalech, feiticeiro de Mhu Thulan, estudante de toda a sabedoria anterior à sua própria época. Sábio em segredos terríveis não conhecidos por Paul Tregardis, que era um amador em antropologia e ciências ocultas na Londres dos dias recentes, buscou através do cristal leitoso uma maneira de conseguir conhecimentos ainda mais antigos e terríveis.

Ele havia adqurido a pedra de maneira duvidosa, vinda de fonte mais que sinistra. Era singular e incomparável, em todas as terras ou tempos. Em suas profundezas, todos os anos anteriores, todas as coisas que já haviam acontecido, supostamente eram espelhadas e revelar-se-iam ao visionário paciente. E através do cristal, Zon Mezzamalech sonhava recuperar a sabedoria dos deuses que morreram antes que a Terra houvesse nascido. Haviam passado para além do vácuo sem luz, deixando sua sabedoria inscrita em tabuletas de pedra ultraestelar; tabuletas guardadas no lodaçal primordial pelo demiurgo amorfo e idiota, Ubbo-Sathla. Apenas através do cristal conseguiria encontrar e ler as tabuletas.

Pela primeira vez, estava testando as virtudes propaladas do globo. Em volta de si, uma câmara enfeitada de marfim, cheia de livros e parafernálias mágicas, estava lentamente esvaindo de sua consciência. Diante dele, numa mesa de alguma madeira negra hiperbórea, gravada com cifras grotescas, o cristal parecia inchar e aprofundar-se, e em suas profundezas translúcidas contemplou um rápido e desconexo turbilhão de cenas vagas, transitórias como as bolhas na calha de um moinho. Era como se estivesse testemunhando o mundo real, com suas cidades, florestas, montanhas, mares e prados fluindo abaixo dele, iluminando-se e escurecendo-se como se a passagem dos dias e noites fosse bizarramente acelerada no fluxo do tempo.

Zon Mezzamalech esquecera Paul Tregardis – perdera a lembrança de sua própria existência e dos arredores em Mhu Thulan. Momento a momento, a visão fluente no cristal ficava mais definida e distinta, e a própria orbe aprofundava-se até causar vertigens, como se estivesse de uma altura insegura, espreitando um abismo jamais antes sondado. Ele sabia que o tempo retrocedia no cristal, desenrolando diante dele o cortejo de todos os dias já passados; mas um estranho alarmismo o arrebatou, e temeu continuar observando. Como alguém que quase caiu de um precipício, forçou-se para fora do transe da orbe, com um arranco violento.

Mais uma vez, diante de seu olhar, o enorme mundo rodopiante que havia espreitado não passava de um pequeno e nebuloso cristal, na sua mesa rúnica em Mhu Thulan. E então, pouco a pouco, pareceu que o grande aposento de painéis esculpidos de marfim de mamute estava estreitando-se para formar outro lugar, mais escuro; e Zon Mezzamalech, perdendo sua sabedoria sobrenatural e poder feiticeiro, retornou, em uma estranha regressão, a ser Paul Tregardis.

Porém, aconteceu que não conseguiu retornar completamente. Tregardis, tonto e cogitabundo, encontrava-se diante da mesa de trabalho onde havia posto a esfera oblata. Sentiu a confusão daquele que sonha e ainda assim não despertou totalmente do sonho. O aposento o confundia de maneira vaga, como se algo estivesse errado com seu tamanho e mobília; e sua lembrança da compra do cristal das mãos de um vendedor de curiosidades misturava-se esquisita e discrepantemente com a impressão de que havia adquirido o objeto de maneira bastante diversa.

Sentia que algo muito estranho havia acontecido com ele, ao espreitar o cristal; mas exatamente o quê, não conseguia lembrar. A experiência havia deixado aquele tipo de turvação que advém de uma orgia de haxixe. Assegurou-se de que era Paul Tregardis, que vivia em tal e tal rua em Londres, que o ano era 1932; mas tais verdades e lugares-comum tinham de certa forma perdido seu significado e validade; e tudo ao seu redor parecia fantasmagórico e insubstancial. As próprias paredes pareciam evanescer como fumaça; as pessoas nas ruas eram espectros de espectros; e ele mesmo não passava de uma sombra perdida, um eco vagante de algo há muito esquecido.

Resolveu não repetir o experimento de cristalomancia. Os efeitos eram demasiado desagradáveis e duvidosos. Mas no mesmo dia seguinte, seguindo um impulso irracional ao qual sucumbiu quase que mecanicamente e sem relutância, encontrou-se sentado diante do orbe nebuloso. Mais uma vez tornou-se o feiticeiro Zon Mezzamelech, em Mhu Thulan; mais uma vez sonhou para recuperar a sabedoria dos deuses pré-mundanos; mais uma vez fugiu do cristal aprofundante, com o terror daqueles que temem cair; e mais uma vez – embora de forma tênue e duvidosa – ele se tornava Paul Tregardis.

Três vezes Tregardis repetiu a experiência, em dias sucessivos; e a cada vez, sua própria pessoa e o mundo ao seu redor tornavam-se mais tênues e confusos. Suas sensações eram as de um sonhador prestes a despertar; e a própria Londres era tão irreal quanto as terras que somem diante do sonhador, desaparecendo numa bruma viscosa, numa luz nebulosa. Era como se a fantasmagoria do tempo e do espaço dissolvesse ao seu redor, revelando alguma realidade mais crível – ou outro sonho de espaço e tempo.

Veio então, por fim, o dia em que ele sentou-se diante do cristal – e não mais retornou como Paul Tregardis. Foi em dia em que Zon Mezzamalech, impetuosamente desconsiderando certos alertas malignos e portentosos, resolveu superar seu curioso medo de cair corporalmente no mundo visionário que contemplava – medo que até então o impedia de seguir muito o fluxo inverso do tempo. Ele deveria, repetia a si mesmo, conquistar esse medo, se quisesse ver e ler as tabuletas perdidas dos deuses. Havia contemplado apenas pouco mais que alguns fragmentos dos anos de Mhu Thulan imediatamente posteriores aos anos contemporâneos de sua própria vida; e haviam ciclos inestimáveis entre esses anos e o Princípio.

Mais uma vez, diante de seu olhar, o cristal aprofundou-se imensuravelmente, mostrando cenas e acontecimentos que fluíam de maneira retrógrada. Mais uma vez as cifras mágicas da mesa escura saíram de seu campo de percepção, e as paredes feiticeiramente inscritas de sua câmara desfizeram-se como algo menos que um sonho. Mais uma vez ficou tonto de uma enorme vertigem, ao curvar-se diante do turbilhão e sorvedouro dos terríveis abismos de tempo naquele orbe que parecia um planeta. Sentindo medo, apesar de sua resolução, quase acabou por afastar-se; mas observara e espreitara por tempo demais. Houve uma sensação de queda abissal, uma sucção como se de ventos inelutáveis, de redemoinhos que o esmagou através de visões instáveis e efêmeras de sua própria vida passada, até chegar a anos e dimensões pré-natais. Parecia suportar a agonia da dissolução invertida; e que não era mais Zon Mezzamalech, o sábio e erudito observador do cristal, mas uma parte real do fluxo esquisitamente rápido que corria em reverso para reatingir o Princípio.

Pareceu viver inúmeras vidas, morrer miríades de mortes, esquecendo a cada vez a morte e a vida que aconteciam antes. Lutou como guerreiro em batalhas semilendárias; foi uma criança brincando nas ruínas de alguma antiga cidade de Mhu Thulan; foi um rei que reinava quando a cidade estava em seu ápice, o profeta que prevera sua construção e seu fim. Como uma mulher, chorou pelos mortos há muito falecidos, em necrópoles há muito em ruínas; como um antigo mago, murmurou os feitiços rudimentares das primeiras feitiçarias; como sacerdote de algum deus pré-humano, empunhou a adaga sacrificial em templos-cavernas de pilares de basalto. Vida por vida, era por era, retraçou os longos e trôpegos ciclos através dos quais a Hiperbórea ascendera da selvageria para a alta civilização.

Tornou-se um bárbaro de alguma tribo troglodita, fugindo do gelo lento e torreado de uma prévia era glacial, invadindo terras iluminadas pelo fulgor rubicundo dos vulcões perpétuos. E então, após incomputáveis anos, não era mais um homem, mas uma fera similar a homem, vagando em florestas de samambaias e calamitas gigantes, ou construindo um ninho improvisado nos galhos de poderosas cicadáceas.

Através de éons de sensação anterior, de luxúria e fome básicas, de terror e loucura aborígenes, havia alguém – ou algo – que retrocedia no tempo. A morte tornou-se nascimento e o n nascimento era a morte. Numa lenta visão de mudança reversa, a terra pareceu derreter, e desfez-se das colinas e montanhas de seus estratos posteriores. O sol ficava sempre maior e mais quente sobre os pântanos fumegantes, que pululavam de vida grosseira, em meio a uma vegetação mais exuberante. E a coisa que havia sido Paul Tregardis, que havia sido Zon Mezzamalech, era parte de toda essa monstruosa involução. Voou com as asas de garras de um pterodáctilo, nadou em mares tépidos com o volume vasto e comprido de um ictiossauro, urrou grosseiro com a garganta armadurada de algum behemote esquecido, urrando para a enorme lua que queimava em meio a névoas primordiais.

Com o passar do tempo, após éons de brutalidade imemorial, tornou-se um dos homens-serpente perdidos, que preparavam suas cidades de gneisse negra e lutavam suas guerras venenosas no primeiro continente do mundo. Caminhou onduladamente em ruas pré-humanas, em estranhas criptas curvas; espreitou as estrelas primevas do topo de torres altas e babélicas; ajoelhou-se nas litanias sibilantes dos grandes ídolos serpentinos. Com o passar de anos e épocas da era ofídica, ele voltou a ser uma coisa que rastejava no limo, uma coisa que não havia ainda aprendido a pensar e sonhar e construir. E veio o tempo em que não havia mais continente, mas apenas um charco vasto e caótico, um mar de limo, sem limites ou horizontes, sem costas ou elevações, fervilhando no contorcer cego dos vapores amorfos.

E então, no princípio cinzento da Terra, a massa disforme que era Ubbo-Sathla repousava por entre o limo e os vapores. Sem cabeça, sem órgãos, sem membros, expelia de suas laterais lodosas, numa onda lenta e incessante, as formas ameboides que constituíam os arquétipos da vida terrena. Era algo horrível, se fosse possível apreender o horror; algo repugnante, se houvesse alguém ali capaz de sentir repugnância. Perto dele, largadas ou lançadas na lama, estavam as poderosas tábulas de pedra minerada nas estrelas, onde estava escrita a inconcebível sabedoria dos deuses pré-mundanos.

E para ali, para o objetivo de uma busca esquecida, foi atraída a coisa que havia sido – ou que algum dia haveria de tornar-se Paul Tregardis e Zon Mezzamalech. Transformado numa salamandra amorfa do começo dos tempos, a coisa rastejava preguiçosa e indiferente sobre as decaídas tábulas dos deuses, e lutava e devorava cegamente outras crias de Ubbo-Sathla.

* * *

Quanto a Zon Mezzamalech e seu desaparecimento, não há menção em parte alguma, exceto naquele breve trecho do Livro de Eibon. Quanto a Paul Tregardis, que também desaparecera, houve uma breve notícia em vários dos jornais londrinos. Ninguém parecia saber nada sobre o caso: ele desaparecera como se jamais houvesse existido; e o cristal, presume-se, também desaparecera. Ou pelo menos, ninguém o encontrou.






Leia o original aqui:
http://www.eldritchdark.com/writings/short-stories/224/ubbo-sathla
Baixe a tradução em pdf aqui:
http://pt.scribd.com/doc/102539807/Ubbo-Sathla-Clark-Ashton-Smith-Traducao-Arthur-Ferreira-Jr

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O ANDARILHO DO PÓ

Clark Ashton Smith
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.



…Os antigos magos o conheciam, e o nomearam Quachil Uttaus. Poucas vezes é ele revelado: pois habita além do mais exterior dos círculos, no limbo soturno do tempo e espaço não-esféricos. Temível é a palavra que o convoca, palavra jamais pronunciada exceto em pensamentos: Pois Quachil Uttaus é a corrupção definitiva; e o momento de sua chegada é como a passagem de muitas eras; e nem a carne, nem a pedra, podem suportar suas andanças, pois todas as coisas ruem sob seus pés, átomo por átomo. E por esta razão, alguns o têm chamado O Andarilho do Pó.
-- Testamento de Carnamagos






Foi após intermináveis debates e argumentações consigo mesmo, após muitas tentativas de exorcizar a legião incorpórea e turva de seus medos, que John Sebastian retornou à causa que havia deixado tão apressadamente. Havia estado ausente por três dias; mas mesmo isto fora uma interrupção sem precedentes na vida reclusa e erudita a qual havia entregado-se totalmente após herdar a velha Mansão, junto com uma generosa quantia. Em momento algum havia definido por completo as razões de sua fuga: todavia a fuga parecera obrigatória. Havia uma certa urgência medonha que o impelira; mas agora, que havia se resolvido a retornar, a urgência havia estabelecido-se na forma de nervos exaustos pela dedicação excessivamente íntima e prolongada a seus livros. Ele havia imaginado certas coisas: mas essas coisas imaginadas eram patentemente absurdas e sem base alguma.


Mesmo se o fenômeno que o havia perturbado não fosse de todo imaginário, deveria haver alguma solução natural que não havia pensado com sua mente sobrecarregada. O amarelar súbito de um caderno recém-comprado, o desfazer das bordas das folhas, eram sem dúvida devido a imperfeições latentes do papel; e o estranho desvanecer de seus registros que, quase do dia para a noite, haviam tornado-se tênues, como se fossem escrita antiga – era claramente resultado de substâncias químicas baratas e falhas na tinta. O aspecto de antiguidade bruta, quebradiça e roída por vermes, que havia manifestado-se em certos elementos da mobília, certas porções da mansão, não mais era que a súbita revelação de uma desintegração oculta, que havia ocorrido sem que ele notasse, enquanto estava absorto pela dedicação meticulosa às pesquisas soturnas. E foi a mesma dedicação, com seus anos contínuos de esforço e confinamento, que trouxe seu envelhecimento prematuro; de modo que, ao contemplar-se no espelho, na manhã de sua fuga, ficara chocado e apavorado como se diante da aparição de uma múmia encarquilhada. Quanto ao criado, Timmers – bem, Timmers já era velho, e todos lembravam-se dele assim. Fora apenas o exagero dos nervos doentes que recentemente pensou ver em Timmers uma decrepitude tão extrema que o faria cair, sem o estado intermediário da morte, direto na podridão do túmulo.


De fato, podia explicar tudo que o havia perturbado, sem fazer referência aos conhecimentos selvagens e remotos, às demonologias e sistemas esquecidos que havia sondado. Aquelas passagens no Testamento de Carnagos, sobre as quais havia ponderado com esquisito desânimo, eram relevantes apenas aos horrores evocados por feiticeiros loucos de eras passadas.


Sebastian, firme em tais convicções, voltou à sua casa ao pôr do sol. Não tremia ou desfalecia quando cruzou o terreno que recebia a sombra dos pinheiros, e correu célere pelos degraus da fachada. Imaginou, embora sem certeza, se haviam de fato sinais de dilapidação nesses degraus; e a própria casa, conforme aproximava-se, parecia ter ficado um tanto derrubada, como se houvesse ocorrido erosão nos alicerces; mas isto, disse a si mesmo, era apenas ilusão trazida pelo crepúsculo que se iniciava.


Nenhuma lâmpada acesa, mas Sebastian não surpreendera-se com isto, pois sabia que Timmers, se deixado sozinho, costumava caminhar nas trevas como uma coruja senil, muito após o momento apropriado do acender das luzes. Sebastian, por outro lado, sempre havia tido aversão à escuridão ou mesmo às sombras; e recentemente a aversão havia aumentado bastante. Resoluto, acendeu todos os bulbos da casa tão logo a luz do dia começou a faltar. E agora resmungando sua irritação com a incompetência de Timmers, empurrou a porta e buscou apressado a fechadura do corredor.


Talvez devido a uma agitação nervosa que não percebera em si mesmo, perdeu um bom tempo sem achar o interruptor. O corredor era estranhamente sombrio e um reluzir do pôr-do-sol cinzento emanava entre os altos pinheiros para dentro do vão da porta por trás dele, mas sem conseguir penetrar além da soleira. Não conseguia enxergar coisa alguma; era como se a noite das eras mortas houvesse feito do corredor seu covil; e as narinas de Sebastian, ali onde ele havia parado, foram assaltadas por uma pungência seca, como se vinda de pó ancestral, odor como de cadáveres e caixões há muito indistintos na decadência pulverulenta.


Finalmente achara o interruptor; mas a iluminação que reagia era de algum modo tênue e insuficiente, e ele parecia detectar um pisca-pisca de sombras, como se o circuito estivesse falhando. Contudo ficou reconfortado em perceber que a casa, aparentemente, estava como ele a havia deixado. Talvez inconscientemente temesse encontrar os painéis de carvalho esfarelando-se numa podridão fragmentária, o tapete transformado em frangalhos comidos pelas traças; havia pensado ouvir o quebrar de tacos poderes sob seu andar.


E agora, imaginava, onde estava Timmers? O envelhecido faz-tudo, apesar de sua crescente senilidade, sempre havia sido rápido em atender; e muito embora não houvesse ouvido seu mestre entrar, o ligar das luzes teria sinalizado o retorno de Sebastian. Porém, muito embora Sebastian atentasse com dolorosa insistência, não ouvia o ranger dos familiares passos debilitados. O silêncio envolvia a tudo, como uma mortalha fúnebre e imperturbada.


Sem dúvida, pensou Sebastian, haveria alguma explicação mundana para tal. Timmers havia ido à aldeia próxima, talvez para reabastecer a despensa, ou na esperança de receber comunicação de seu mestre; e Sebastian havia dele se desencontrado, ao retornar da estação. Ou talvez o velho houvesse adoecido e agora jazesse vulnerável em seu quarto. Pressuroso com este último pensamento, foi direto ao dormitório de Timmers, que ficava no andar térreo, nos fundos da mansão. Estava vazio, e a cama estava primorosamente feita e obviamente não fora ocupada na noite anterior. Com um suspiro de alívio que pareceu retirar um horrendo íncubo de seu peito, decidiu Sebastian que a primeira conjectura estava correta.


Mas agora, ao esperar o retorno de Timmers, havia sentido nos nervos outro ato de inspiração, e marchou até o estúdio. Não admitia a si mesmo, com precisão, o que temia ver; mas à primeira vista, o aposento não havia mudado em nada, e todas as coisas estavam como no momento de sua partida apressada. A pilha alta e confusa de manuscritos, volumes e cadernos em sua mesa de escrever estava intocada por ninguém exceto sua própria mão; e as prateleiras da estante de livros, com seus acervos bizarros e aterrorizantes de autoridades em diabolismo, necromancia, goétia e em todas as ciências ridicularizadas ou proibidas, estavam imperturbadas e intactas. Sobre o velho atril, ou porta-livro, usado para os tomos mais pesados, estava o Testamento de Carnamagos, com sua capa marroquim e sua tranca de ossos humanos, estava aberto na mesma página que o havia assustado tão irracionalmente, com suas intimações sobrenaturais.


E então, ao passar para o espaço entre o atril e a mesa, percebeu pela primeira vez o inexplicável empoeiramento sobre tudo. O pó acumulava-se em toda parte; um pó fino e cinzento, como polvilho de átomos mortos. Havia coberto os manuscritos com um filme profundo, assentado-se espesso sobre as cadeiras, abajures e volumes; e os ricos vermelhos e amarelos como papoula das tapeçarias orientais eram desfeitos pelo acúmulo do pó. Era como se muitos anos desolados houvessem passado na câmara desde sua partida, e houvessem espanado de seus invólucros amortalhados a poeira de todas as coisas em ruínas. O mistério daquilo fez tremer Sebastian; pois ele sabia que o aposento havia sido varrido com rigor apenas três dias antes; e Timmers havia de espanar a cada manhã, cuidadosa e meticulosamente, durante sua ausência.


E agora o pó ascendia numa nuvem leve e rodopiante ao seu redor, preenchendo as narinas de Sebastian com o mesmo odor seco, como se oriundo de uma dissolução fantasticamente antiga, que o havia encontrado no corredor. Ao mesmo tempo percebeu o vento tempestuoso e frio que de alguma forma penetrava o aposento. Ele imaginara que uma das janelas havia sido deixada aberta, mas um olhar assegurou-o de que elas haviam sido fechadas por cortinas avassaladoras; e a porta havia se fechado por trás dele. O vento era leve como o suspirar de um fantasma, mas onde quer que passasse, levantava o fino pó sem peso, enchendo o ar e mais uma vez caindo numa lentidão imensa. Sebastian sentiu um estranho alarme, como se houvesse soprado nele um vento das dimensões desconhecidas, ou por uma oculta fenda de ruínas; e simultaneamente foi tomado por um paroxismo de tosse prolongada e violenta.


Ele não conseguira localizar a fonte do vento. Mas enquanto movia-se descuidado e impaciente, seu olhar foi atraído por uma pilha baixa e longa de pó cinzento, que até então havia sido oculto de sua visão pela mesa. Estava logo abaixo da cadeira que usava para escrever. Próximo à pilha de poeira estava o espanador usado por Timmers em sua rodada diária de limpeza.


Pareceu a Sebastian que o rigor de uma grande e letal frialdade havia invadido todo seu ser. Ele não conseguiu mexer-se por vários minutos, contemplando o inexplicável monturo. No centro deste via uma vaga depressão, que poderia ser a marca de uma pegada bastante diminuta, meio apagada pelos sopros de vento que evidentemente haviam levado muito do pó e espalhado-o pela câmara.


Finalmente o poder do movimento voltara a Sebastian. Sem reconhecer conscientemente o impulso que o impeliu a tal, abaixou-se para pegar o espanador. Mas quando seus dedos o tocaram, o cabo e as penas dissolveram-se em fina poeira que, assentada numa pequena pilha, preservava de maneira vaga os contornos do objeto original.


Uma fraqueza assolou Sebastian, como se o fardo da idade e mortalidade absolutas esmagasse seus ombros entre um instante e outro. Houve um rodopiar de sombras vertiginosas diante de seus olhos, sobre a luz da lâmpada, e ele pensou que desfaleceria, se não sentasse de imediato. Colocou a mão na cadeira ao seu lado – e a cadeira, com o toque, desfez-se instantaneamente em nuvens leves de pó, que assentavam-se atraídas pelo chão.


Depois disso – quanto tempo depois, não conseguiria precisar – encontrou-se sentado na cadeira alta, diante do trecho onde o Testamento de Carnamagos se abria. Surpreendeu-se de modo vago pela cadeira não ter-se desfeito sob seu peso. Assaltava-o novamente a urgência da fuga rápida e repentina daquela casa amaldiçoada; mas parecia que ele havia ficado velho demais, encarquilhado e débil demais; e que nada mais importava muito – nem mesmo aquele destino final apavorante que entrevia.


Agora, sentado num estado mesclando o terror e o estupor, seus olhos foram atraídos pelo volume magista diante de si: os escritos do sábio e vidente maligno Carnamagos, que foram recobrados mil anos passados, em alguma tumba greco-bactriana, e transcritos por um monge apóstata no grego original, usando o sangue de um monstro procriado por íncubos. Naquele volume estavam as crônicas dos grandes feiticeiros da antiguidade, e as histórias de demônios terrenos e ultracósmicos, e os encantamentos verdadeiros através dos quais os demônios poderiam ser controlados e dispensados. Sebastian, estudante profundo de tais conhecimentos, há muito acreditara que o livro era apenas uma lenda medieval; e ficara tanto espantado quanto gratificado quando encontrara a esta cópia nas prateleiras de um comerciante de velhos manuscritos e incunábulos. Dizia-se que apenas duas cópias haviam existido, e que a outra havia sido destruída pela Inquisição Espanhola, no começo do século XIII.


A luz piscava como se asas ominosas houvessem batido perto dela; e os olhos de Sebastian ficaram baços de um corrimento cada vez mais profuso, conforme lia mais uma vez aquela passagem fatal e sinistra que havia conseguido provocar-lhe medos tão soturnos:


'Embora Quachil Uttaus atenda – mas atenda raramente, foi bem documentado que seu advento nem sempre ocorre em resposta à runa pronunciada e ao pantáculo desenhado... Poucos magos, de fato muito poucos convocariam um espírito assim tão agourento... Mas que fique perfeitamente claro que aquele que lê sozinho, no silêncio de sua câmara, a fórmula dada mas abaixo, correrá graves riscos se em seu coração abrigar aberta ou disfarçadamente o mínimo desejo de morte e aniquilação. Pois pode acontecer que Quachil Uttaus a ele atenda, trazendo aquele destino final que, com o mais leve toque, transforma o corpo no pó eterno, e torna a alma num vapor para toda a eternidade dissolvido. E o advento de Quachil Uttaus é pressagiado por certos indícios; pois na pessoa do evocador, e possivelmente nas pessoas mais próximas a ele, aparecerão os sinais da súbita idade avançada; e sua casa, e os pertences que houver tocado, assumirão as marcas de decadência e antiguidade apressadas...'


Sebastian não percebera que resmungava as sentenças em voz baixa, quando as lia; que também resmungara o terrível encantamento que seguia ao alerta... Seus pensamentos rastejaram como se envoltos por algo frio e congelante. Numa certeza embotada e mórbida, soube que Timmers não havia ido à aldeia. Devia ter avisado a Timmers antes de partir; deveria ter escondido e trancado o Testamento de Carnamagos... pois Timmers, a seu modo, era também um erudito, e a ele não faltava curiosidade sobre os estudos ocultistas de seu mestre. Timmers estava bastante apto a ler o grego de Carnamagos... e até mesmo aquela fórmula atroz e devastadora das almas, a qual Quachil Uttaus, demônio da corrupção definitiva, responderia do vácuo exterior... Sebastian adivinhou daí, com precisão, a origem do pó cinzento, a razão daqueles esfarelamentos misteriosos...


Sentiu mais uma vez o impulso de fuga; porém seu corpo era um íncubo seco e morto, que recusava a obedecer à própria vontade. De qualquer forma, refletiu consigo, já era tarde demais, pois os sinais do fim haviam reunido-se ao seu redor e sobre ele... Porém, certamente jamais houvera nele o mínimo anseio por morte e destruição. Ele apenas desejara sondar os mistérios sombrios que cercavam o estado mortal. E sempre havia sido cauteloso, jamais mexera com círculos mágicos e evocações de presenças perigosas. Sabia da existência de espíritos do mal, espíritos da cólera, perdição e aniquilação; mas jamais, pela própria vontade, invocaria qualquer um de suas prisões e abismos noturnos...






Sua letargia e fraqueza pareceu aumentar; foi como se lustros inteiros, décadas completas de senescência sobre ele caíssem, no espaço de um fôlego. Sua linha de pensamentos se interrompia a intervalos, e ele a recobrava com dificuldade. Suas memórias, e até mesmo seus medos, pareciam cambalear nos limites de um oblívio final. Com os ouvidos quase surdos, ouviu um som de madeira caindo e quebrando, em algum lugar da casa; com os olhos exibindo uma catarata como a dos anciões, viu as luzes tremerem e apagarem sob o ataque de uma escuridão negra como um morcego.


Era como se a noite de uma catacumba em ruínas se fechasse sobre ele. Sentia aos poucos o respirar tênue e gélido do vento que o havia perturbado antes, com seu mistério; e mais uma vez o pó ascendeu até suas narinas. Percebeu então que o aposento não estava totalmente escuro, pois conseguia discernir os vagos contornos do atril diante de si. Certamente nenhum raio de luz passava pelas venezianas; porém ainda assim havia luz. Seus olhos, abrindo-se com um esforço titânico, viram pela primeira vez que uma fenda irregular e grosseira havia surgido na parede externa do aposento, no alto do canto norte. Através da fenda uma estrela solitária reluzia na câmara, fria e remota como o olho de um demônio espreitando através de golfos intercósmicos.


Daquela estrela – ou dos espaços além dela – um raio de lívida radiância, pálido e mortal, lançou-se como um dardo contra Sebastian. Da largura de uma tábua, inabalável, imovível, parecia transfixar seu próprio corpo e formar uma ponte entre si e os mundos da escuridão inimaginável.


Estava como se petrificado pelo olhar da górgona. E então, através da brecha das ruínas, veio algo planando suave e rapidamente para dentro do aposento, em sua direção, seguindo o raio de luz. A parede pareceu esfarelar-se e a fenda alargar-se, quando a coisa entrou.


Era uma figura não maior que uma pequena criança, mas seca, murcha e encarquilhada como uma múmia milenar. Sua cabeça calva, seu rosto sem feições definidas, saídos de um pescoço de magreza esquelética, eram decorados por milhares de rugas reticuladas. O corpo era como o de um aborto monstruoso e emaciado que jamais houvesse conhecido a respiração. Os braços como varetas, terminando em garras ossudas, estendiam-se para frente como se anquilosados nesse gesto de eterno e temível tatear. As pernas, de pés como os de uma Morte pigmeia, eram fundidas como se houvessem sido comprimidas por bandagens mortuárias; não havia nelas qualquer movimento, ou caminhar, ou marcha. Ereto e rígido, o horror flutuava célere, descendo pelo raio acinzentado, pálido e mortal, na direção de Sebastian.


E agora estava próximo dele, a cabeça da coisa próxima a sua fronte e seus pés opostos a seu tórax. Por um momento fugaz, percebeu que o horror havia nele tocado, com suas mãos esticadas, com seus pés obscenamente flutuantes. Parecia fundir-se a ele, tornar-se uno com seu ser. Sentia que suas veias se enchiam de pó, que seu cérebro esfarelava-se, célula por célula. E então ele não era mais John Sebastian, mas um universo de estrelas e mundos mortos, que decaíam remoendo a escuridão, diante do tremendo soprar de algum vento ultraestelar...


A coisa que os magos imemoriais haviam chamado de Quachil Uttaus havia desaparecido; e a noite e as estrelas haviam retornado àquela câmara arruinada. Mas em parte alguma encontrava-se sequer a sombra de John Sebastian; apenas um leve monturo de pó, no chão diante do atril, exibindo uma vaga depressão, como a pegada de um diminuto pé... ou dois pés muito encostados.




Texto original em inglês encontrado em
http://www.eldritchdark.com/writings/short-stories/222/the-treader-of-the-dust

Texto traduzido em PDF
http://www.4shared.com/office/Zx6t7yy4/Andarilho_do_P_-_Clark_Ashton_.html

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

DISTANCIAMENTO

Clark Ashton Smith
Tradução de Arthur Ferreira Jr.'.




Há dias em que toda a beleza do mundo é tênue e estranha; quando a luz do sol ao meu redor parece cair numa terra mais remota que os polos da lua. As rosas no jardim me surpreendem, como monstruosas orquídeas de cor desconhecida, que brotam nos planetas além de Aldebarã. E estou chocado com as folhas amarelas e púrpuras de Outubro, como se no véu de algum tremendo e horrendo mistério fosse quase levantado, por um momento. Em tais horas, ó coração do meu coração, sinto medo de tocar-te, evito tuas carícias, temendo que tu desapareças como se num sonho diante da aurora, ou que eu reconheça em ti um fantasma, o espectro daquela que morreu e foi esquecida milhares de anos atrás, numa terra distante onde o sol não mais reluz.



O LAGO NEGRO

Clark Ashton Smith
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.



Numa terra onde a bizarria e o mistério aliaram-se fortemente à desolação eterna, o lago se derramava desde uma data inencontrável de eras ancestrais, para preencher algum golfo insondável, lá muito abaixo, entre as sombras das montanhas vulcânicas, que não exibiam neve alguma. Nenhum olho, nem mesmo o olho do sol, quando contemplava verticalmente sobre o algo durante poucas horas ao redor do meio-dia, parecia conseguir adivinhar o que havia nas suas profundezas de escuridão tristonha e silêncio imperturbável. Por esta razão, senti um prazer tão singular em contemplar, com bastante frequência, o estranho lago. Sentado lá, nem sei por quanto tempo, em suas praias basálticas e geladas, onde cresciam apenas umas poucas orquídias rubras e carnosas, curvadas sobre as águas, como bocas ávidas e arreganhadas, eu vislumbrava conjeturas fantásticas e imaginações sombrias, dentro do sedutor mistério de seu golfo desconhecido e inexplorável.

Foi em tal hora da manhã, antes do sol haver ultrapassado o grosseiro e erodido limiar dos cumes, quando cheguei pela primeira vez, e desci pelas sombras que enchiam, como se fossem algum fluido mais sutil, a bacia vulcânica. Visto no fundo da tintura imóvel do ar e da luz fraca, o lago figurava-me uma poça sedimentada de escuridão.



Vislumbrando pela primeira vez, após a descida difícil e profunda, dentro de tão águas plúmbeas e opacas, conseguia perceber muito bem certos brilhos infimos e dispersos de prata, aparentemente muito abaixo da superfície. Era como se fosse o sinal de metal incrustado em alguma misteriosa elevação submersa, ou o reluzir de algum tesouro há muito naufragado. Cheguei mais perto, em minha avidez, e finalmente percebi que o que eu enxergara não passava do reflexo das estrelas, já que embora o dia estivesse se mostrando sobre as montanhas e planícies lá fora, as estrelas ainda eram visíveis nas profundezas e trevas daquele lugar tão sombrio.






Original em inglês em http://en.wikisource.org/wiki/The_Black_Lake

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O JARDIM E A TUMBA

Clark Ashton Smith
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.




Sei de um jardim de flores -- flores amáveis e maravilhosas e multiformes como as orquídeas de mundos longínquos e exóticos -- como as flores de pétalas mil, cujas cores mudam como se por encanto na alteração dos sóis triplos; flores como os lírios-tigres do jardim de Satã; como os muito pálidos lírios do Paraíso, ou amarantes em cuja beleza perfeita e imortal os serafins tanto ponderam; flores ardorosas e esplêndidas como as flores rubras ou douradas do fogo; flores luminosas e frias como as flores de cristal da neve; flores onde não há nenhuma igual, em nenhum mundo de sol algum; que não possuem símbolo, no céus ou no inferno.


Infelizmente, no coração do jardim há uma tumba -- uma tumba tão revolta e coberta de vinhas e brotos, que a luz do sol não revela o macabro brilho de seu mármore a uma inspeção menos cuidadosa ou incúria. Porém, à noite, quando as flores estão imóveis, e seus perfumes são tão suaves como a respiração das crianças que dormem -- então, e só então, as serpentes que nascem da corrupção rastejam da tumba, e deixam trilhas do fedor e fosforecência de sua habitação, de um lado ao outro do jardim.

9 de junho de 1915.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A LITANIA DOS SETE BEIJOS

Clark Ashton Smith
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.



I
Beijo tuas mãos -- tuas mãos, cujos dedos são delicados e pálidos como as pétalas da lótus branca.

II
Beijo teu cabelo, que tem o lustre das joias negras, e que é mais escuro que o Rio Lethe, fluindo à meia-noite através do sono sem luar de terras perfumadas por papoulas.

III
Beijo tua testa, que lembra uma lua nascendo num vale de cedros.


IV
Beijo tuas bochechas, onde permanece um leve enrubescer, como o reflexo de uma rosa sobre uma urna de alabastro.

V
Beijo tuas pálpebras, e as comparo às flores de veias púrpuras, que fecham-se sob a opressão de uma noite tropical, numa terra onde os ocasos são tão luminosos quanto as chamas do âmbar flamejante.

VI
Beijo tua garganta, cuja palidez ardente é a palidez do mármore aquecido pelo sol de outono.

VII
Beijo tua boca, que tem o sabor e perfume da fruta molhada do orvalho de uma fonte mágica, no paraíso secreto que apenas nós dois encontraremos; um paraíso de onde jamais partiremos, pois as águas que nele vadeiam são as do Lethe, e a fruta é a fruta da Árvore da Vida.



13 de abril de 1921.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

AO DEMÔNIO

Clark Ashton Smith
Tradução de Arthur Ferreira Jr.'.




Conte-me muitas histórias, ó demônio benigno e maleficente, mas não conte nenhuma que já tenha escutado, ou jamais sonhado, conte-me do obscuro e infrequente. Não, não conte sobre nada que jaz entre as fronteiras do tempo ou os limites do espaço; pois estou um tanto esgotado de tantos anos registrados e terras mapeadas; e as ilhas a oeste de Catai, e os reinos iluminados de Ind, não são remotos o suficiente para serem a base de minhas concepções; e a Atlântida é sobremaneira recente, para que meus pensamentos até lá viajem, e Mu fitou o sol em eras demasiado recentes.


Conte-me muitas histórias, mas que sejam histórias de coisas de um passado além das lendas, e das quais não existam mitos em nosso mundo, ou qualquer dos mundos próximos. Conte-me, se preferir, dos anos em que a lua era nova, com mares perturbados pelas sereias, e montanhas circundadas de flores, desde a base até o pico; conte-me de planetas cinzentos de antiguidade, dos mundos que nenhum astrônomo mortal jamais contemplou, e cujos horizontes e céus místicos chocam os visionários. Conte-me das mais vastas florações, em cujos cálices convidativos uma mulher poderia dormir; dos mares de fogo que batem ondas sobre praias de gelo eternamente duradouro; de perfumes que de um único hausto causam o sono eterno; de titãs sem olhos, que habitam Urano, e seres que vagueiam na luz verde dos sóis gêmeos, um azul-celeste e o outro laranja. Conte-me histórias de medo inconcebível e amor inimaginável, em orbes de onde nosso sol é visto como uma estrela sem nome, ou mesmo uma onde seus raios jamais alcançaram.



sábado, 24 de setembro de 2011

UM SONHO NO LETHE

De Clark Ashton Smith
Tradução de Arthur Ferreira Jr.'.







Procurando aquela que perdi, cheguei a tempo às costas do Lethe, sob a abóbada de um céu imenso, vazio e ébano, a partir do qual todas as estrelas sumiam, uma por uma.  Vinda não sei de onde, uma luz pálida e fugidia, como a da lua minguante, ou a fosforescência fantasmagórica de um sol morto, caiu tênue e sem lustre sobre a torrente obsidiana, e sobre os prados negros e sem flor alguma.  Sob esta luz, enxerguei muitas almas errantes, de homens e mulheres, que vinham, hesitantes ou sôfregas, beber das lentas águas que nunca murmuram.  Porém entre todas essas, nenhuma partia sôfrega, e muitos que permaneciam contemplavam, com olhos que não enxergavam, o movimento calmo e sem ondas da torrente.  À distância, na forma graciosa e alta como um lírio, e no rosto imóvel e altivo de uma mulher que permanecia separada do resto, enxerguei aquela a quem buscava; e, correndo para estar ao seu lado, com um coração onde antigas memórias cantavam como um ninho de rouxinóis, fui ávido em tomar da sua mão.  Porém nos olhos pálidos e imutáveis, e nos lábios imóveis e descorados, que achegaram-se aos meus, não enxerguei luz alguma de memórias, nenhum tremor de reconhecimento.  E sabendo agora que ela havia esquecido, fugi desesperado, e encontrei o rio diante de mim, de súbito senti minha antiga sede por suas águas, uma sede que um dia pensei satisfazer em muitas e diversas fontes, mas em vão.  Abaixando-me apressado, bebi, e levantando mais uma vez, percebi que a luz havia morrido ou desaparecido, e que toda a terra era como a terra de um sono sem sonhos, onde eu não conseguia mais distinguir os rostos de meus companheiros.  Nem nunca mais conseguiria lembrar jamais por quê eu desejei beber das águas do esquecimento.


Clark Ashton Smith

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VINDOS DAS CRIPTAS DA MEMÓRIA

por Clark Ashton Smith
em 1917
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'. em 2011


Texto retirado de "Ébano e Cristal" ("Ebony and Crystal")




Eras e eras atrás, numa época cujos mundos maravilhosos já haviam ruído, e cujos poderosos sóis eram menos que sombra, habitava eu uma estrela cujo curso, já sem retorno, em sua decadência vinda dos altos céus do passado, estava cada vez mais aproximando-se de um abismo onde, diziam os astrônomos, seu ciclo imemorial encontraria um fim sombrio e desastroso.

    Ah, era estranha aquela estrela esquecida em seu golfo – quão mais estranha que qualquer sonho dos sonhadores nas esferas do hoje, ou que qualquer visão que já assomou os visionários, em sua retrospectiva do passado sideral! Ali, através de ciclos de história cujos registros empilhados, escritos em bronze, não podiam mais ser enumerados, os mortos vieram a superar, em definitivo, os vivos. E, construídas de uma pedra indestrutível, salvo na fornalha dos sóis, suas cidades cresciam ao lado das dos vivos, como as metrópoles prodigiosas dos Titãs, com muralhas que conjuravam sombras sobre as vilas próximas. E sobre tudo aquilo, havia a cripta fúnebre e sombria dos enigmáticos céus – um domo de sombras infinitas, onde o triste sol, suspenso como uma lâmpada enorme e solitária, não conseguia iluminar, e extinguindo suas chamas em face do inevitável, enviava um raio confuso e desesperador sobre os remotos e vagos horizontes, e as vistas ocultas eram ilimitadas, naquela terra visionária.



Éramos um povo sombrio, secreto e muito tristonho – nós, que habitávamos sob o céu do crepúsculo eterno, penetrado por altíssimas torres e obeliscos do passado. Em nosso sangue, sentia-se o calafrio da antiga noite do tempo; e nossos pulsos enfraqueciam com a insidiosa presciência do langor do Lethe. Sobre nossas cortes e campos, como vampiros invisíveis e letárgicos, nascidos dos mausoléus, ascendiam e flutuavam as horas negras, com asas que destilavam uma languidez maléfica, nascida do lamento sombrio e do desespero dos ciclos encerrados. Os próprios céus eram carregados de opressão, e respirávamos sobre eles como se num sepulcro, para sempre selado, com todas as estagnações da corrupção e da lenta decomposição, e da escuridão impenetrável, a não ser aos vermes que roem.

    Vivíamos de forma vaga, e amávamos como se ama nos sonhos – os tênues e místicos sonhos que flutuam sobre o limiar do sono inescrutável. Sentíamos por nossas mulheres, com sua beleza pálida e espectral, o mesmo desejo que os mortos podiam sentir pelos lírios fantasmagóricos dos campos do Hades. Nossos dias se passavam num vagar por entre as ruínas das cidades solitárias e imemoriais, cujos palácios de cobre corroído, e ruas que corriam entre linhas de obeliscos gravados a ouro, repousavam frágeis e macabros àquela luz mortiça, ou eram afogados para todo o sempre, em meio aos mares da sombra estagnante; cidades cujas igrejas vastas e construídas com o ferro preservavam sua aura de mistério e fascínio primordial, a partir da qual os simulacros de deuses esquecidos há séculos buscavam, com olhos inalteráveis, nos céus desesperançosos, a noite pressagiada, o esquecimento definitivo. Languidamente, cultivávamos nosso jardins, cujos lírios cinzentos ocultavam um perfume necromântico, que tinha o poder de evocar-nos para os sonhos mortos e espectrais do passado. Ou, errando pelos campos cinzas do outono perene, buscávamos as raras e místicas margaridas imortais, cujas folhas sombrias e pétalas pálidas, que floresciam debaixo de salgueiros de folhagem lívida e velada; ou cobertas por um orvalho doce e narcótico, pelo silêncio fluente das águas aquerônticas.

    E um por um, morremos, e nos perdemos na poeira do tempo acumulado. Percebemos os anos como um passar de sombras, e conhecemos a própria morte como o render-se do crepúsculo à noite.






Leia o original em inglês em:
http://en.wikisource.org/wiki/From_the_Crypts_of_Memory

A FLOR-DEMÔNIO

CLARK ASHTON SMITH
Título Original: The Flower-Devil
Tradução: Arthur Ferreira Jr.'.





       Numa pia de alabastro, no alto de um pilar de serpentina, a coisa existe desde um templo primevo, no jardim dos reis que governam um reino equatorial no planeta Saturno.  Com folhagem negra, fina e intricada como a teia de alguma enorme aranha; com pétalas de um rosa lívido, e púrpuras como o púrpura de carne putrefata; e um caule ascendente, como o pulso peludo e escuro de um bulbo tão antigo, tão incrustrado com o crescimento dos séculos, que lembra uma urna de pedra, a flor monstruosa mantém domínio sobre todo o jardim.  Nesta flor, desde os anos das mais antigas lendas, um demônio maligno habita -- um demônio cujo nome e natividade são conhecidos pelos magistas superiores, e pelos misteriarcas do reino, embora uma icógnita a todos os outros.  Sobre as flores quase-animadas, as orquídeas ofídeas que se enroscam e ferroam, os lírios quirópteros que à noite abrem suas pétalas arcadas como costelas, e com minúsculos dentes amarelados, banqueteiam-se com os corpos das libélulas adormecidas; os cactos carnívoros que bocejam com lábios esverdeados, abaixo de suas barbas de espinhos amarelados e venenosos; as plantas que palpitam como corações, os brotos que suspiram com um hálito de perfume peçonhento -- acima de todas essas plantas, a Flor-Diabo reina suprema, em sua imortalidade maligna, e inteligência maldosa e perversa -- incitando-as a uma estranha maleficência, a um capricho fantástico, até mesmo a atos de rebelião contra os jardineiros, que continuam com suas tarefas com cautela e tremor, já que mais de um deles já fora mordido, sendo mesmo levado à morte, por alguma flor raivosa e envenenada.  Em alguns pontos, o jardim tornou-se selvagem, devido à falta de cuidados dos jardineiros temerosos, e tornou-se um emaranhado monstruoso de rastejantes serpentinos, e de plantas com cabeças de hidra, convoluto e retorcido em si mesmo de tanto ódio letal ou amor venenoso, e tão horrível como uma multidão de víboras e pítons ocupados em lutar.


       E, como fizeram seus inúmeros ancestrais, antes dele, o rei não ousa destruir a Flor, por medo de que o diabo, expulso de seu refúgio, possa buscar uma nova residência, e entrar no cérebro ou corpo de um dos súditos do rei -- ou mesmo no coração de sua tão bela, gentil e amada rainha!





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