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domingo, 23 de setembro de 2012

VISÕES DO ALÉM



HP Lovecraft
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.






Horrenda além de todo entendimento, a mudança que ocorrera em meu melhor amigo, Crawford Tillinghast. Eu não o via desde aquele dia, há dois meses e meio, quando ele contou-me o rumo que estavam levando suas pesquisas físicas e metafísicas; quando ele reagiu às minhas objeções fascinadas e quase assustadas expulsando-me de seu laboratório e casa, num surto de fúria fanática. Eu soube que ele havia permanecido a maior parte do tempo trancado em seu laboratório, no sótão, com aquela amaldiçoada máquina elétrica, comendo pouco, e evitando até mesmo os criados, mas não pensei que um breve período de dez semanas pudesse alterar e desfigurar tanto uma criatura humana. Não é agradável ver um homem robusto de repente emagrecer, e é ainda pior quando a pele flácida ficou amarelada, ou acinzentada, os olhos afundados, marcados de olheiras e por um brilho esquisito, a testa cheia de veias e rugas, e as mãos trêmulas e agitadas. E para piorar o caso, via-se uma falta de higiene repelente, uma desordem louca no vestuário, os cabelos escuros desgrenhados e brancos em suas raízes, e uma barba branca malcuidada onde antes não haviam sinais do barbear, tudo causando um efeito cumulativo bastante chocante. Mas era esse o aspecto de Crawford Tillinghast na noite em que sua mensagem quase incoerente levou-me a bater em sua porta, após minhas semanas de exílio; era esse o espectro que tremia ao receber-me, segurando uma vela, espiando furtivamente por sobre o ombro, como se temeroso de coisas ocultas em sua antiga e solitária casa no topo da Rua Benevolent.

Era um equívoco, Crawford Tillinghast jamais deveria ter estudado ciência e filosofia. Estas coisas devem ser deixadas para o investigador frio e impessoal, pois oferecem duas alternativas trágicas ao homem de sentimentos e ação; o desespero, se falhar em suas buscas, e terrores incomunicáveis e inimagináveis, caso tenha sucesso. Tillinghast havia antes sido presa do fracasso, solitário e melancólico; mas agora eu percebia, sentindo por dentro um medo nauseante, que ele era presa do sucesso. De fato, eu o havia advertido dez semana s antes, quando ele havia chegado, afobado com o relato do que achava estar próximo de descobrir. Estava então corado e empolgado, falando num tom alto e incomum, embora como sempre pedante.

“O que é que sabemos,” disse ele então, “do mundo e do universo ao nosso redor? Nossos meios de receber impressões são absurdamente escassos, e nossas noções dos objetos que nos cercam são infinitamente estreitas. Enxergamos as coisas apenas de acordo a como somos construídos para enxergá-las, e não conseguimos ideia alguma de sua natureza absoluta. Com cinco débeis sentidos, pretendemos compreender o cosmos, que é infinitamente complexo, porém outros seres, dotados de sentidos mais amplos, mais fortes, ou de uma gama diferente de sentidos, podem não apenas perceber as coisas de maneira bastante diferente da que percebemos, como podem perceber e estudar mundos inteiros de matéria, energia e vida que estão a nosso alcance mas que nunca podem ser detectados com os sentidos que temos. Sempre acreditei que esses mundos estranhos e inacessíveis estejam diante dos nossos narizes, e agora acredito ter encontrado uma maneira de romper as barreiras. Não estou brincando. Dentro de vinte e quatro horas, aquela máquina próxima à mesa vai gerar ondas, agindo sobre órgãos sensoriais não reconhecidos, que existem dentro de nós atrofiados, ou como vestígios rudimentares. Essas ondas abrirão a nós muitos vislumbres desconhecidos ao homem, e alguns desconhecidos de qualquer coisa que consideramos como vida orgânica. Enxergaremos aquilo que faz os cães uivarem na noite, e aquilo que faz os gatos levantarem as orelhas após a meia-noite. Enxergaremos essas coisas, e mais outras coisas que nenhuma criatura que respira jamais conseguiu ver. Saltaremos sobre o tempo, espaço, e outras dimensões, e sem que seja preciso o movimento físico, espiaremos os alicerces da criação.”

Quando Tillinghast disse essas coisas, fiz objeções, pois eu o conhecia bem demais, de modo que senti mais medo do que achei graça; mas ele estava fanático e expulsou-me da casa. Agora ele não era menos fanático, mas seu desejo de falar conquistara seu ressentimento, e fez exigências numa caligrafia que eu mal conseguia reconhecer. Ao entrar no lar de meu amigo, tão subitamente metamorfoseado numa gárgula trêmula, fui infectado pelo terror que parecia espreitar de todas as sombras. As palavras e crenças expressas dez semanas atrás pareciam vazar da escuridão além do pequeno círculo de luz de vela, e fiquei incomodado com a voz exausta e alterada de meu anfitrião. Pensava ver os criados ali, e não gostei quando ele me disse que haviam todos saído três dias antes. Parecia estranho, pelo menos, que o velho Gregory abandonaria seu mestre, sem pelo menos avisar um amigo próximo como eu. Fora ele mesmo que informara-me de tudo que eu sabia de Tillinghast, depois de eu ter sido expulso com tanta fúria.

Mesmo assim, logo pus de lado todos os meus medos em prol de minha crescente curiosidade e fascinação. Eu podia apenas cogitar exatamente o quê Crawford Tillinghast desejava, mas ele tinha algum segredo ou descoberta espantosa para compartilhar, sem dúvida. Antes, eu havia protestado contra suas observações antinaturais de coisas impensáveis; agora que ele havia, evidentemente, tido algum grau de êxito, eu quase compartilhava de seu entusiasmo, por mais terrível que parecesse o custo da vitória. Subindo pela desolação sombria da casa, segui a vela vacilante na mão daquela paródia trêmula de homem. A eletricidade parecia ter sido desligada, e quando perguntei a meu guia sobre isso, ele disse que havia uma razão definida para tanto.

“Seria demais... eu não ousaria,” ele continuou a resmungar. Notei especialmente o novo hábito de resmungos, pois não era coisa de Tillinghast falar sozinho. Entramos no laboratório do sótão, e percebi a detestável máquina elétrica, brilhando com uma luminosidade violeta doentia e sinistra. Estava conectada a uma bateria química poderosa, mas parecia não estar recebendo corrente; pois lembrei que em seu estágio experimental, ela crepitava e bramia quando ligada. Respondendo a minha pergunta, Tillinghast resmungou que aquele brilho permanente não era elétrico, não de alguma forma que eu pudesse compreender.

Ele fez-me sentar do lado da máquina, de modo que esta ficasse à minha direita, e ligou um interruptor em algum lugar logo abaixo do aglomerado superior de bulbos de vidro. Começou o crepitar de costume, que passou a ser apenas um chiado, e terminou como um zumbido tão leve que sugeria o retorno ao silêncio. Enquanto isso, a luminosidade aumentou, mais uma vez diminuiu, e então assumiu uma coloração pálida e esquisita, que eu não conseguiria classificar nem descrever. Tillinghast me observava, e notou minha expressão confusa.

“Sabe o que é isto?” sussurrou, “Isto é ultravioleta.” Ele reagiu à minha surpresa com um estranho risinho. “Você pensava que ultravioleta era invisível, e de fato é – mas você pode enxergá-lo, e outras coisas invisíveis, agora.”

“Preste atenção! As ondas dessa coisa estão despertando em nós milhares de sentidos adormecidos; sentidos que herdamos durante eras de evolução, do estado de életrons livres para o estado de humanidade orgânica. Eu enxerguei a verdade, e tenciono mostrá-la para você. Você consegue imaginar como é essa verdade? Vou explicar.” Aqui Tillinghast sentou-se diretamente oposto a mim, soprou a chama da vela e fitou meus olhos de maneira horrível. “Seus órgãos sensorais existentes – primeiro os ouvidos, creio eu – receberão muitas das impressões, pois estão intimamente conectados com os órgãos dormentes. E então virão os outros. Já ouviu falar da glândula pineal? Rio-me dos rasos endocrinologistas, tão iludidos e superestimados quanto os psicanalistas freudianos. Essa glândula é o principal órgão sensorial – assim descobri. No fim das contas, é similar à visão, e transmite imagens visuais ao cérebro. Se você é normal, é esta a forma com que apreenderá a maior parte... quero dizer, a maior parte das evidências do além.”

Meus olhos correram pelo imenso aposento do sótão, com sua parede sul inclinada, tenuamente iluminado por raios que o olho cotidiano não consegue enxergar. Os cantos mais distantes estavam cheios de sombras, e o lugar inteiro assumiu uma vaga irrealidade, que obscureceu sua natureza, e convidava a imaginação ao simbolismo e à fantasia. Durante o intervalo em que Tillinghast permaneceu calado, imaginei-me estar em algum vasto e incrível templo de deuses há muito mortos; algum vago edifício de inúmeras colunas de pedra negra, saindo do chão de lajes úmidas para juntar-se a um topo nebuloso, além do alcance de minha visão. A imagem por um tempo ficou bastante vívida, porém pouco a pouco, deu lugar a uma concepção mais horrenda; a concepção da solidão total e absoluta no espaço cego, mudo e infinito. Parecia haver um vácuo e nada mais que isso, e senti um medo infantil, que levou-me a buscar no bolso o revólver que eu carregava nas horas noturnas, desde que havia sido assaltado no leste de Providence. E então, das mais longínquas regiões remotas, o som suavemente boiou e fez-se existente. Era infinitamente tênue, sutilmente vibrante, e sem sombra de dúvida musical, mas tinha um aspecto de instabilidade exagerada que fazia com seu impacto sentisse como uma delicada tortura em todo o meu corpo. Senti sensações como aquelas que se sente quando se pisa em vidro no chão, por acidente. Simultaneamente, surgiu algo como uma corrente de ar frio, que parecia passar por mim, vinda da direção do som distante. Esperando sem fôlego, percebi que tanto o som quanto o vento aumentavam; e o efeito dava-me a bizarra impressão de estar preso aos trilhos no caminho de uma gigantesca locomotiva, que chegava cada vez mais perto. Comecei a falar com Tillinghast, e ao fazê-lo, todas as impressões incomuns desapareceram abruptamente. Eu enxergava apenas o homem, a máquina brilhante, e o apartamento em sombras. Tillinghast sorria repelente, notando o revólver que eu havia quase inconscientemente sacado, mas por sua expressão, eu tinha certeza de que ele havia visto e ouvido tanto quanto eu, se não muito mais. Sussurrei o que eu havia experienciado, e ele ordenou-me que permanecesse tão quieto e receptivo quanto possível.

“Não se mexa,” avisou, “pois sob estes raios, podemos tanto ser vistos quanto ver. Eu te disse que os criados foram embora, mas não disse como. Foi culpa daquela governanta de cabeça dura – ela ligou as luzes lá embaixo, depois de eu ter alertado que não o fizesse, e os fios pegaram vibrações simpáticas. Deve ter sido aterrador – pude ouvir os gritos aqui em cima, apesar de tudo que estava vendo e ouvindo de outra direção, e mais tarde, foi bastante desagradável encontrar aquelas pilhas de roupas vazias, largadas pela casa. As roupas da sra. Updike estavam próximas do interruptor do salão principal – é por isso que sei o que ela fez. A coisa pegou todos eles. Mas conquanto permaneçamos imóveis, estaremos perfeitamente seguros. Lembre-se, estamos lidando com um mundo horroroso, no qual estamos praticamente indefesos... fique quieto!

A combinação do choque da revelação com o comando abrupto causou-me uma espécie de paralisia, e aterrorizada, minha mente mais uma vez abriu-se às impressões vindas do que Tillinghast chamava “além.” Estava agora num vórtice de som e movimento, de imagens confusas diante de meus olhos. Enxergava os contornos borrados do aposento, mas em algum ponto do espaço, parecia brotar uma coluna efervescente de formas ou nuvens irreconhecíveis, penetrando o telhado sólido em algum ponto adiante, à minha direita. Notei então mais uma vez o efeito do templo, mas desta vez, os pilares alcançavam um oceano aéreo de luz, que lançava para baixo um raio cegante sobre o caminho da coluna nebulosa que eu enxergara antes. Depois disso, a cena ficou quase totalmente caleidoscópica, e na mistura de visões, sons, e impressões sensoriais não identificadas, sentia como se fosse dissolver, ou de alguma forma, perder a forma sólida. Tive uma visão definida, que lembrarei para sempre. Por um instante, pareci contemplar um trecho de um estranho céu noturno, cheio de esferas luminosas e girantes, e enquanto esse trecho afastava-se de mim, notei que os sóis brilhantes formavam uma constelação, ou galáxia, de formato definido; e esse formato era o do rosto distorcido de Crawford Tillinghast. Em outro momento, senti enormes coisas animadas roçando em mim, e às vezes passando ou vagando pelo meu corpo supostamente sólido, e pensei notar Tillinghast fitando-as como se seus sentidos melhor treinados pudessem percebê-las visualmente. Lembrei o que ele havia dito sobre a glândula pineal, e imaginei o que ele podia enxergar com esse olho sobrenatural.

De súbito, eu mesmo fui dotado de uma espécie de visão aprimorada. Acima e além do caos luminoso e sombrio, surgiu uma imagem que, embora vaga, possuía os elementos da consistência e da permanência. De fato era algo familiar, pois a parte incomum era sobreposta à cena terrestre comum, de forma bastante similar à projeção de cinema, que pode ser lançada sobre a cortina escura. Eu enxergava o laboratório no sótão, a máquina elétrica, e a forma desagradável de Tillinghast diante de mim; mas em todo o espaço não ocupado por objetos familiares, nenhuma partícula estava vazia. Formas indescritíveis, tanto vivas quanto inanimadas, mesclavam-se numa desordem nauseante, e próximo a cada coisa conhecida, haviam mundos inteiros de entidades alienígenas e desconhecidas. Da mesma forma, parecia que todas as coisas conhecidas entravam na composição de outras coisas desconhecidas, e vice-versa. Mais notáveis entre os objetos vivos, percebiam-se monstruosidades, similares a águas-vivas e feitas de negrume, que agitavam-se flácidas, em harmonia com as vibrações da máquina. Estavam presentes numa profusão repugnante, e para meu horror, percebi que elas sobrepunham-se; que eram semifluidas e capazes de passar umas por dentro das outras, e pelas coisas que pensamos ser sólidas. Aquelas coisas nunca paravam, mas pareciam sempre flutuar com algum propósito maligno. Às vezes, pareciam devorar umas às outras, o atacante lançando-se contra sua vítima e instantaneamente obliterando-a de vista. Sentindo calafrios, percebi o que devia haver obliterado os infelizes criados, e não pude excluir esse pensamento da mente, enquanto lutava para observar outras propriedades do mundo invisível ao nosso redor, e que agora estava visível diante de mim. Porém Tillinghast estava me vigiando, e começou a falar.

“Consegue enxergá-las? Consegue enxergá-las? Enxergou as coisas que flutuam e agitam-se ao seu redor e através de você, em todos os momentos de sua vida? Consegue enxergar as criaturas que formam o que os homens chamam de ar puro e de céu azul? Não consegui quebrar as barreiras; não mostrei a você mundos que nenhum outro homem vivo jamais viu?” Ouvia seu grito através daquele caos horrível, e vi seu rosto selvagem aproximar-se ofensivo. Seus olhos eram poços de chamas, e fitavam-ne com o que eu agora percebia ser um ódio intenso. A máquina zumbia de maneira detestável.

Você acha que essas coisas trêmulas eliminaram os criados? Idiota, são inofensivas! Mas os criados desapareceram, não foi? Você tentou me impedir; desencorajou-me quando eu precisava de cada gota de encorajamento que pudesse conseguir; você estava com medo da verdade cósmica, seu maldito covarde, mas agora eu te peguei! O que aniquilou os criados? O que os fez gritar tão alto?... Não sabe, hein! Mas vai saber logo, logo. Olhe para mim – preste atenção ao que estou dizendo – você realmente supõe que existam coisas como tempo e magnitude? Imagina existir coisas como forma, ou matéria? Pois eu lhe digo, eu atingi profundezas que seu cerebrozinho não conseguiria conceber. Eu enxerguei além dos limites da infinitude e arrastei demônios das estrelas... eu canalizei as sombras que vagam de mundo em mundo, semeando morte e loucura... o espaço a mim pertence, está ouvindo? Coisas estão me caçando agora – as coisas que devoram e dissolvem – mas eu sei como ludibriá-las. É você que elas pegarão, como pegaram os criados... Está agitado, senhor? Eu disse que era perigoso se mexer, eu o salvei até agora, dizendo que ficasse parado – salvei-o para ver mais coisas, e ouvir minhas palavras. Se você tivesse se mexido, elas o teriam pego bem antes. Não se preocupe, elas não vão machucar você. Elas não machucaram os criados – foi enxergá-las que fez os pobres diabos berrarem tanto. Meus bichinhos não são bonitos, pois vêm de lugares onde os padrões estéticos são – bem diferentes. A desintegração é um processo indolor, asseguro a você – mas eu quero que você as veja. Eu quase as vi, mas soube quando parar. Está curioso? Eu sempre soube que você não era um cientista de verdade. Tremendo, hein. Tremendo de ansiedade para ver as coisas mais ocultas que eu descobri. Por que não se move, então? Está cansado? Bem, não se preocupe, meu amigo, pois elas estão vindo... Olhe, olhe, mas que diabo, olhe... estão logo acima de seu ombro esquerdo...”

O resto do que há para ser dito é bastante breve, e você já pode saber por ter lido nos jornais. A polícia ouviu um tiro na velha casa Tillinghast, e nos encontrou ali – Tillinghast morto, e eu inconsciente. Eles prenderam-me, porque o revólver estava em minha mão, mas libertaram-me três horas depois, pois descobriram que Tillinghast havia morrido de apoplexia, e perceberam que meu tiro havia sido contra a nociva máquina, que agora está estilhaçada para sempre no chão do laboratório. Eu não contei muito do que vi, pois temi que o legista ficasse cético; mas ouvindo o resumo evasivo que dei, o médico avaliou que eu havia, sem dúvida, sido hipnotizado pelo louco vingativo e homicida. Gostaria de acreditar nesse médico. Ajudaria meus nervos abalados se eu pudesse não considerar mais o que agora penso do ar e do céu ao meu redor e sobre mim. Nunca mais senti-me sozinho ou confortável, e uma horrenda sensação de perseguição às vezes me toma como um calafrio, quando estou cansado. O que me impede de acreditar no médico é um fato muito simples – a polícia nunca encontrou os corpos daqueles criados que dizem que Crawford Tillinghast assassinou.








Escrito em 1920 e originalmente publicado com o título em inglês de From Beyond, em 1934 na Fantasy Fan.
Traduzido para o português em setembro de 2012.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

UBBO-SATHLA


Clark Ashton Smith
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.






Pois Ubbo-Sathla é a fonte e o produto final. Antes de Zhothaqquah, ou Yok-Zothoth, ou Kthulhut descerem das estrelas, Ubbo-Sathla já habitava os pântanos escaldantes da Terra recém-criada: uma massa sem cabeça ou membros, gerando as salamandras amorfas da época primordial e os pavorosos protótipos da vida terrena... E toda a vida terráquea, assim é dito, deverá retornar por fim, através do grande círculo do tempo, a Ubbo-Sathla.

O Livro de Eibon


Paul Tregardis encontrou o cristal leitoso numa pilha de restos de muitas terras e eras. Havia entrado na loja do vendedor de curiosidades, seguindo um impulso sem objetivo, sem qualquer objetivo específico em mente que não a distração ociosa de olhar e tocar uma miscelânia de coisas reunidas de muitos locais distantes. Passando os olhos pelo material, sem método algum, seu atenção foi atraída por um brilho embotado em uma das mesas; e extraiu a esquisita pedra em formato de orbe de sua posição sombria e atulhada entre um pequeno e feio ídolo asteca, o ovo fossilizado de uma moa, e um obsceno fetiche nigeriano, feito de madeira negra.

A coisa tinha mais ou menos o tamanho de uma pequena laranja, e era levemente aplanada nas extremidades, como um planeta em seus polos. Aquilo intrigava Tregardis, pois não era um cristal comum, sendo nebuloso e mutável, com um brilho intermitente em seu âmago, como se fosse alternadamente iluminado e escurecido a partir de dentro. Segurando-o à luz da janela cheia de neve, estudou-o um pouco, sem conseguir determinar o segredo daquela singular e regular alternação. Sua confusão logo foi complicada por uma sensação cada vez maior de vaga e irreconhecível familiaridade, como se houvesse visto a coisa antes, em circunstâncias agora totalmente esquecidas.

Chamou o vendedor de curiosidades, um hebreu diminuto de ar de antiguidade empoeirada, que dava a impressão de estar perdido em considerações comerciais, em alguma rede de devaneios cabalísticos.

“Pode dizer-me alguma coisa sobre isto?”

O vendedor contraiu de maneira indescritível e simultânea os ombros e as sobrancelhas.

“É bastante antigo – paleogênico, poder-se-ia dizer. Não posso dizer muito, pois sabe-se pouco. Um geólogo encontrou-o na Groelândia, sob o gelo glacial, em terreno mioceno. Quem sabe? Pode ter pertencido a algum feiticeiro da Thule primeva. A Groelândia era uma região quente e fértil sob o sol da época miocena. Sem dúvida é um cristal mágico; e pode-se ter estranhas visões em seu âmago, caso seja observado por tempo suficiente.

Tregardis ficou bastante surpreso; pois a sugestão aparentemente fantástica do vendedor trouxe à mente suas próprias sondagens de um ramo da sabedoria obscura; em particular lembrava-se do Livro de Eibon, aquele volume esquecido e oculto tão estranho e raro, que diz-se ter sido passado adiante através de uma série de múltiplas traduções, a partir de um original pré-histórico escrito no idioma perdido da Hiperbórea. Tregardis, com bastante dificuldade, obtera a versão francesa – cópia que estivera em posse de muitas gerações de feiticeiros e satanistas – mas nunca conseguira encontrar o manuscrito grego a partir do qual aquela versão fora derivada.

O original remoto e fabuloso era tido como a obra do grande mago hiperbóreo que lhe dava o título. Era uma coleção de mitos sombrios e ominosos, de liturgias, rituais e encantamentos tão malignos quanto esotéricos. Não sem sentir calafrios, no decorrer dos estudos que uma pessoa comum acharia mais que singular, Tregardis havia feito comparações do volume francês com o temível Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred. Encontrara muitas correspondências de significância bastante sombria e aterradora, junto com vários dados proibidos que eram desconhecidos do árabe ou omitidos por ele... ou por seus tradutores.

Seria isso o que estava tentando relembrar, pensou Tregardis? – a referência breve e casual no Livro de Eibon a um cristal nebuloso que fora propriedade do mago Zon Mezzamalech, em Mhu Thulan? É claro, era tudo fantástico demais, hipotético demais, incrível demais – porém Mhu Thulan, a porção norte da antiga Hiperbórea, supostamente correspondia mais ou menos à Groelândia moderna, que antes seria uma península do continente principal. Será que a pedra em suas mãos, por um acaso fabuloso, seria o cristal de Zon Mezzamelech?

Tregardis sorriu consigo mesmo, diante da ironia que era sequer conceber essa noção absurda. Tais coisas não aconteceriam – pelo menos não na Londres contemporânea; e de qualquer forma, muito provavelmente o Livro de Eibon não passava de fantasia supersticiosa. Mesmo assim, havia algo no cristal, que continuava a tentá-lo e persuadi-lo. Terminou por comprar o cristal, por um preço razoavelmente moderado. A soma foi declarada pelo vendedor e paga pelo comprador, sem qualquer barganha.

Com o cristal no bolso, Paul Tregardis apressou-se em voltar a seu alojamento, ao invés de continuar o passeio de lazer. Instalou o globo leitoso em sua mesa de trabalho, onde ficou firme sobre uma de suas extremidades oblatas. E então, ainda sorrindo com o próprio absurdo, pegou o manuscrito em papel de pergaminho amarelado, o Livro de Eibon, de seu lugar numa coleção um tanto abrangente de literatura incomum. Abriu a capa de couro vermiculado, de fechos de aço manchado, e leu para si mesmo, traduzindo a partir do francês arcaico, o parágrafo que referia-se a Zon Mezzamelech:


“Este mago, bastante poderoso entre os feiticeiros, encontrara uma pedra nebulosa, semelhante a um orbe, um tanto achatada nas extremidades, na qual podia contemplar muitas visões do passado terreno, e até mesmo dos começos da Terra, quando Ubbo-Sathla, a fonte incriada, repousa vasta e inchada e fermentescente em meio à geleia vaporosa... Mas daquilo que chegou a contemplar, Zon Mezzamalech deixou poucos registros; e as pessoas dizem que ele desapareceu de maneira desconhecida; e depois disso o cristal nebuloso se perdera.”

Paul Tregardis colocou o manuscrito de lado. Mais uma vez, havia algo que o tentava e seduzia, como um sonho perdido ou uma memória condenada ao esquecimento. Impelido por uma sensação que não ponderou ou questionou, sentou-se diante da mesa e começou a fitar resoluto as profundezas da orbe gelada e nebulosa. Sentia uma expectativa que, de alguma forma, era tão familiar, uma parte de sua consciência tão permeante, que nem chegou a dar-lhe um nome.

Minuto após minuto, ficou ali sentado, observando o reluzir e apagar alternados da misteriosa luz no âmago do cristal. Quase que imperceptivelmente, foi abatendo-se sobre ele uma sensação de dualidade onírica quanto à sua pessoa e seu ambiente. Ele ainda era Paul Tregardis – mas também era outro alguém: o aposento era o do seu apartamento em Londres – mas também uma câmara em algum lugar estrangeiro, embora bastante conhecido. E em ambos os lugares, ele fitava com resolução o mesmo cristal.

Após um ínterim, sem surpresa da parte de Tregardis, o processo de reidentificação tornou-se completo. Ele sabia que era Zon Mezzamalech, feiticeiro de Mhu Thulan, estudante de toda a sabedoria anterior à sua própria época. Sábio em segredos terríveis não conhecidos por Paul Tregardis, que era um amador em antropologia e ciências ocultas na Londres dos dias recentes, buscou através do cristal leitoso uma maneira de conseguir conhecimentos ainda mais antigos e terríveis.

Ele havia adqurido a pedra de maneira duvidosa, vinda de fonte mais que sinistra. Era singular e incomparável, em todas as terras ou tempos. Em suas profundezas, todos os anos anteriores, todas as coisas que já haviam acontecido, supostamente eram espelhadas e revelar-se-iam ao visionário paciente. E através do cristal, Zon Mezzamalech sonhava recuperar a sabedoria dos deuses que morreram antes que a Terra houvesse nascido. Haviam passado para além do vácuo sem luz, deixando sua sabedoria inscrita em tabuletas de pedra ultraestelar; tabuletas guardadas no lodaçal primordial pelo demiurgo amorfo e idiota, Ubbo-Sathla. Apenas através do cristal conseguiria encontrar e ler as tabuletas.

Pela primeira vez, estava testando as virtudes propaladas do globo. Em volta de si, uma câmara enfeitada de marfim, cheia de livros e parafernálias mágicas, estava lentamente esvaindo de sua consciência. Diante dele, numa mesa de alguma madeira negra hiperbórea, gravada com cifras grotescas, o cristal parecia inchar e aprofundar-se, e em suas profundezas translúcidas contemplou um rápido e desconexo turbilhão de cenas vagas, transitórias como as bolhas na calha de um moinho. Era como se estivesse testemunhando o mundo real, com suas cidades, florestas, montanhas, mares e prados fluindo abaixo dele, iluminando-se e escurecendo-se como se a passagem dos dias e noites fosse bizarramente acelerada no fluxo do tempo.

Zon Mezzamalech esquecera Paul Tregardis – perdera a lembrança de sua própria existência e dos arredores em Mhu Thulan. Momento a momento, a visão fluente no cristal ficava mais definida e distinta, e a própria orbe aprofundava-se até causar vertigens, como se estivesse de uma altura insegura, espreitando um abismo jamais antes sondado. Ele sabia que o tempo retrocedia no cristal, desenrolando diante dele o cortejo de todos os dias já passados; mas um estranho alarmismo o arrebatou, e temeu continuar observando. Como alguém que quase caiu de um precipício, forçou-se para fora do transe da orbe, com um arranco violento.

Mais uma vez, diante de seu olhar, o enorme mundo rodopiante que havia espreitado não passava de um pequeno e nebuloso cristal, na sua mesa rúnica em Mhu Thulan. E então, pouco a pouco, pareceu que o grande aposento de painéis esculpidos de marfim de mamute estava estreitando-se para formar outro lugar, mais escuro; e Zon Mezzamalech, perdendo sua sabedoria sobrenatural e poder feiticeiro, retornou, em uma estranha regressão, a ser Paul Tregardis.

Porém, aconteceu que não conseguiu retornar completamente. Tregardis, tonto e cogitabundo, encontrava-se diante da mesa de trabalho onde havia posto a esfera oblata. Sentiu a confusão daquele que sonha e ainda assim não despertou totalmente do sonho. O aposento o confundia de maneira vaga, como se algo estivesse errado com seu tamanho e mobília; e sua lembrança da compra do cristal das mãos de um vendedor de curiosidades misturava-se esquisita e discrepantemente com a impressão de que havia adquirido o objeto de maneira bastante diversa.

Sentia que algo muito estranho havia acontecido com ele, ao espreitar o cristal; mas exatamente o quê, não conseguia lembrar. A experiência havia deixado aquele tipo de turvação que advém de uma orgia de haxixe. Assegurou-se de que era Paul Tregardis, que vivia em tal e tal rua em Londres, que o ano era 1932; mas tais verdades e lugares-comum tinham de certa forma perdido seu significado e validade; e tudo ao seu redor parecia fantasmagórico e insubstancial. As próprias paredes pareciam evanescer como fumaça; as pessoas nas ruas eram espectros de espectros; e ele mesmo não passava de uma sombra perdida, um eco vagante de algo há muito esquecido.

Resolveu não repetir o experimento de cristalomancia. Os efeitos eram demasiado desagradáveis e duvidosos. Mas no mesmo dia seguinte, seguindo um impulso irracional ao qual sucumbiu quase que mecanicamente e sem relutância, encontrou-se sentado diante do orbe nebuloso. Mais uma vez tornou-se o feiticeiro Zon Mezzamelech, em Mhu Thulan; mais uma vez sonhou para recuperar a sabedoria dos deuses pré-mundanos; mais uma vez fugiu do cristal aprofundante, com o terror daqueles que temem cair; e mais uma vez – embora de forma tênue e duvidosa – ele se tornava Paul Tregardis.

Três vezes Tregardis repetiu a experiência, em dias sucessivos; e a cada vez, sua própria pessoa e o mundo ao seu redor tornavam-se mais tênues e confusos. Suas sensações eram as de um sonhador prestes a despertar; e a própria Londres era tão irreal quanto as terras que somem diante do sonhador, desaparecendo numa bruma viscosa, numa luz nebulosa. Era como se a fantasmagoria do tempo e do espaço dissolvesse ao seu redor, revelando alguma realidade mais crível – ou outro sonho de espaço e tempo.

Veio então, por fim, o dia em que ele sentou-se diante do cristal – e não mais retornou como Paul Tregardis. Foi em dia em que Zon Mezzamalech, impetuosamente desconsiderando certos alertas malignos e portentosos, resolveu superar seu curioso medo de cair corporalmente no mundo visionário que contemplava – medo que até então o impedia de seguir muito o fluxo inverso do tempo. Ele deveria, repetia a si mesmo, conquistar esse medo, se quisesse ver e ler as tabuletas perdidas dos deuses. Havia contemplado apenas pouco mais que alguns fragmentos dos anos de Mhu Thulan imediatamente posteriores aos anos contemporâneos de sua própria vida; e haviam ciclos inestimáveis entre esses anos e o Princípio.

Mais uma vez, diante de seu olhar, o cristal aprofundou-se imensuravelmente, mostrando cenas e acontecimentos que fluíam de maneira retrógrada. Mais uma vez as cifras mágicas da mesa escura saíram de seu campo de percepção, e as paredes feiticeiramente inscritas de sua câmara desfizeram-se como algo menos que um sonho. Mais uma vez ficou tonto de uma enorme vertigem, ao curvar-se diante do turbilhão e sorvedouro dos terríveis abismos de tempo naquele orbe que parecia um planeta. Sentindo medo, apesar de sua resolução, quase acabou por afastar-se; mas observara e espreitara por tempo demais. Houve uma sensação de queda abissal, uma sucção como se de ventos inelutáveis, de redemoinhos que o esmagou através de visões instáveis e efêmeras de sua própria vida passada, até chegar a anos e dimensões pré-natais. Parecia suportar a agonia da dissolução invertida; e que não era mais Zon Mezzamalech, o sábio e erudito observador do cristal, mas uma parte real do fluxo esquisitamente rápido que corria em reverso para reatingir o Princípio.

Pareceu viver inúmeras vidas, morrer miríades de mortes, esquecendo a cada vez a morte e a vida que aconteciam antes. Lutou como guerreiro em batalhas semilendárias; foi uma criança brincando nas ruínas de alguma antiga cidade de Mhu Thulan; foi um rei que reinava quando a cidade estava em seu ápice, o profeta que prevera sua construção e seu fim. Como uma mulher, chorou pelos mortos há muito falecidos, em necrópoles há muito em ruínas; como um antigo mago, murmurou os feitiços rudimentares das primeiras feitiçarias; como sacerdote de algum deus pré-humano, empunhou a adaga sacrificial em templos-cavernas de pilares de basalto. Vida por vida, era por era, retraçou os longos e trôpegos ciclos através dos quais a Hiperbórea ascendera da selvageria para a alta civilização.

Tornou-se um bárbaro de alguma tribo troglodita, fugindo do gelo lento e torreado de uma prévia era glacial, invadindo terras iluminadas pelo fulgor rubicundo dos vulcões perpétuos. E então, após incomputáveis anos, não era mais um homem, mas uma fera similar a homem, vagando em florestas de samambaias e calamitas gigantes, ou construindo um ninho improvisado nos galhos de poderosas cicadáceas.

Através de éons de sensação anterior, de luxúria e fome básicas, de terror e loucura aborígenes, havia alguém – ou algo – que retrocedia no tempo. A morte tornou-se nascimento e o n nascimento era a morte. Numa lenta visão de mudança reversa, a terra pareceu derreter, e desfez-se das colinas e montanhas de seus estratos posteriores. O sol ficava sempre maior e mais quente sobre os pântanos fumegantes, que pululavam de vida grosseira, em meio a uma vegetação mais exuberante. E a coisa que havia sido Paul Tregardis, que havia sido Zon Mezzamalech, era parte de toda essa monstruosa involução. Voou com as asas de garras de um pterodáctilo, nadou em mares tépidos com o volume vasto e comprido de um ictiossauro, urrou grosseiro com a garganta armadurada de algum behemote esquecido, urrando para a enorme lua que queimava em meio a névoas primordiais.

Com o passar do tempo, após éons de brutalidade imemorial, tornou-se um dos homens-serpente perdidos, que preparavam suas cidades de gneisse negra e lutavam suas guerras venenosas no primeiro continente do mundo. Caminhou onduladamente em ruas pré-humanas, em estranhas criptas curvas; espreitou as estrelas primevas do topo de torres altas e babélicas; ajoelhou-se nas litanias sibilantes dos grandes ídolos serpentinos. Com o passar de anos e épocas da era ofídica, ele voltou a ser uma coisa que rastejava no limo, uma coisa que não havia ainda aprendido a pensar e sonhar e construir. E veio o tempo em que não havia mais continente, mas apenas um charco vasto e caótico, um mar de limo, sem limites ou horizontes, sem costas ou elevações, fervilhando no contorcer cego dos vapores amorfos.

E então, no princípio cinzento da Terra, a massa disforme que era Ubbo-Sathla repousava por entre o limo e os vapores. Sem cabeça, sem órgãos, sem membros, expelia de suas laterais lodosas, numa onda lenta e incessante, as formas ameboides que constituíam os arquétipos da vida terrena. Era algo horrível, se fosse possível apreender o horror; algo repugnante, se houvesse alguém ali capaz de sentir repugnância. Perto dele, largadas ou lançadas na lama, estavam as poderosas tábulas de pedra minerada nas estrelas, onde estava escrita a inconcebível sabedoria dos deuses pré-mundanos.

E para ali, para o objetivo de uma busca esquecida, foi atraída a coisa que havia sido – ou que algum dia haveria de tornar-se Paul Tregardis e Zon Mezzamalech. Transformado numa salamandra amorfa do começo dos tempos, a coisa rastejava preguiçosa e indiferente sobre as decaídas tábulas dos deuses, e lutava e devorava cegamente outras crias de Ubbo-Sathla.

* * *

Quanto a Zon Mezzamalech e seu desaparecimento, não há menção em parte alguma, exceto naquele breve trecho do Livro de Eibon. Quanto a Paul Tregardis, que também desaparecera, houve uma breve notícia em vários dos jornais londrinos. Ninguém parecia saber nada sobre o caso: ele desaparecera como se jamais houvesse existido; e o cristal, presume-se, também desaparecera. Ou pelo menos, ninguém o encontrou.






Leia o original aqui:
http://www.eldritchdark.com/writings/short-stories/224/ubbo-sathla
Baixe a tradução em pdf aqui:
http://pt.scribd.com/doc/102539807/Ubbo-Sathla-Clark-Ashton-Smith-Traducao-Arthur-Ferreira-Jr

terça-feira, 26 de junho de 2012

O ERRANTE DAS ESTRELAS

ROBERT BLOCH
(Dedicado a H. P. Lovecraft)
Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.




I


Eu sou o que professo ser – um escritor de ficção bizarra. Desde a mais tenra infância, fui escravizado pela enigmática fascinação do desconhecido e do indecifrável. Os medos sem nome, os sonhos grotescos, os caprichos mórbidos e quase intuitivos que assombram nossas mentes, sempre causaram em mim um prazer potente e inexplicável.


Na literatura, tenho caminhado pelas trilhas da meia-noite com Poe, ou furtivamente andado pelas sombras com Machen; esquadrinhado os reinos das estrelas horrendas com Baudelaire, ou imerso na loucura interna da terra, entre as histórias da sabedoria antiga. Um talento medíocre em esboços e trabalho com crayon levou-me a tentar rudes pinturas envolvendo os habitantes alienígenas de meus pensamentos noturnos. O mesmo tipo soturno de intelecto que atraiu-me na arte interessava-me nos obscuros reinos da composição musical; as melodias sinfônicas da Suíte dos Planetas e coisas do gênero eram as minhas favoritas. Minha vida interna logo tornou-se um banquete macabro de horrores sobrenaturais e irresistíveis.


Minha existência mundana era comparativamente morna. Conforme passava o tempo, encontrei-me caindo cada vez mais na vida de um recluso pobretão; uma existência tranquila e filosófica entre um mundo de livros e sonhos. 


Mas um homem tem de viver. Por natureza constitucional e espiritualmente averso ao trabalho manual, a princípio fiquei confuso diante da escolha de uma vocação adequada. A depressão complicou as coisas a um grau quase intolerável, e por um certo tempo, estive perto do total desastre econômico. Foi então que decidi escrever.




Procurei uma máquina de escrever gasta, uma resma de papel barato, e alguns papéis carbono. Que melhor campo, se não os reinos infinitos da imaginação colorida? Poderia escrever sobre horror, medo, e sobre o enigma que é a Morte. Pelo menos, na insensibilidade de minha falta de sofisticação, era isto que eu tencionava.


Minhas primeiras tentativas logo convenceram-me de quão completamente eu havia falhado. Triste e miseravelmente, não havia atingido minha meta aspirada. Meus vívidos sonhos, no papel, tornavam-se amontoados sem sentido de adjetivos ponderosos, e não encontrei palavras comuns para expressar o terror maravilhado do desconhecido. Meus primeiros manuscritos eram documentos miseráveis e fúteis; as poucas revistas que utilizaram tais materiais foram unânimes em sua rejeição.


Mas eu tinha de viver. De forma lenta, mas constante, comecei a ajustar meu estilo às minhas ideias. Laboriosamente, experimentei com palavras, frases, estruturas de sentenças.  Era um trabalho, e um trabalho duro. Logo aprendi a me esforçar. Todavia finalmente uma de minhas histórias foi bem recebida; e então uma segunda, uma terceira e uma quarta. Logo, tive de começar a dominar os truques mais óbvios da área, e o futuro enfim parecia mais brilhante. Foi com a mente menos carregada que voltei à minha vida de sonhos e a meus amados livros. Minhas histórias rendiam-me um viver um tanto apertado, e o por um tempo isto foi suficiente. Mas não por muito tempo. A ambição, essa ilusão eterna, foi a causa de minha ruína.


Almejava escrever uma história real; não do tipo estereotipado e efêmero que aparecia nas revistas, mas uma obra de arte real. A criação de uma obra-prima assim tornou-se meu ideal. Eu não era um bom escritor, mas isto não se devia totalmente a meus erros no estilo mecânico. Na verdade, a falha estava no meu assunto abordado. Vampiros, lobisomens, carniçais, monstros mitológicos – estas coisas constituíam material de parco mérito. Imagética de lugar-comum, tratamento adjetival corriqueiro, e um ponto de vista prosaicamente antropocêntrico eram os principais detrimentos na produção de uma boa história bizarra.


Devo buscar novos assuntos, material de tramas verdadeiramente incomum. Se pelo menos pudesse conceber algo que fosse teratologicamente inacreditável!


Ansiava aprender as canções que os demônios cantam quando rodopiam entre as estrelas, ou ouvir as vozes dos deuses mais antigos quando sussurram seus segredos ao vazio ecoante. Almejava conhecer os terrores do túmulo; o beijo das larvas em minha língua, a fria carícia de uma mortalha apodrecida sobre meu corpo. Tinha sede do conhecimento encontrado nos poços de olhos mumificados, e queimava pela sabedoria conhecida apenas pelo verme. E então poderia de fato  escrever, e ter minhas esperanças genuinamente realizadas.




Busquei uma forma. Quietamente, comecei a trocar correspondências com pensadores e sonhadores isolados, de todo o país. Havia um eremita nas colinas a oeste, um sábio nas florestas ao norte, um sonhador místico na Nova Inglaterra. Foi deste último que aprendi sobre os antigos livros que detém estranha sabedoria. Ele citava reservadamente o lendário Necronomicon, e falava timidamente de um certo Livro de Eibon, que tinha a reputação de superar o primeiro no caráter totalmente selvagem de suas blasfêmias. O místico em si havia sido estudante desses volumes de temor primordial, mas não gostava da ideia de me ver pesquisando longe demais. Ele ouvira muitas coisas estranhas quando garoto na cidade de Arkham, assombrada pelas bruxas, onde as antigas sombras ainda espreitam e caminham furtivas, e desde então havia sabiamente evitado o conhecimento mais sombrio e proibido.


Após muita pressão de minha parte, ele relutantemente consentiu em prover-me os nomes de certas pessoas que considerava aptas a ajudar em minha busca. Ele era escritor de notável brilhantismo e ampla reputação entre os poucos relevantes, e eu sabia que ele estava avidamente interessado no resultado da demanda em si.


Tão logo sua preciosa lista chegou em minhas mãos, comecei uma ampla campanha postal para obter acesso aos volumes desejados. Minhas cartas atingiram universidades, bibliotecas privadas, videntes famosos e os líderes de cultos cuidadosamente ocultos e obscuramente designados. Mas estava fadado ao desapontamento.


As réplicas que recebia eram definitivamente inamistosas, quase hostis. Ficava evidente que os falados possuidores de tais conhecimentos ficaram irritados com a ideia de seus segredos assim revelados por um espião estranho. Fui subsequentemente alvo de várias ameaças por carta, e pelo menos uma chamada telefônica alarmante. Isto não me incomodou mais que a percepção desapontadora de que minhas empreitadas haviam falhado. Negativas, evasões, recusas, ameaças – estas coisas não me ajudariam. Deveria buscar em outra parte.


Livrarias! Talvez em alguma prateleira embolorada e esquecida pudesse descobrir o que buscava.


Comecei então uma interminável cruzada. Aprendi a suportar meus numerosos desapontamentos com uma calma inabalável. Ninguém no tipo comum de livraria parecia jamais ter ouvido falar do temível Necronomicon, no maligno Livro de Eibon, ou no inquietante Cultes des Goules.


A persistência traz resultados. Numa pequena e velha livraria da South Dearborn Street, entre prateleiras empoeiradas aparentemente esquecidas pelo tempo, cheguei ao fim de minha busca. Ali, seguramente encaixado entre duas edições de Shakespeare datadas de dois séculos, estava um grande volume negro, com adornos protetores de ferro. Sobre ele, em letra manuscrita, estava a inscrição De Vermis Mysteriis, ou, “Os Mistérios do Verme.”


O proprietário não sabia dizer como foi que aquele livro havia chegado a sua posse. Anos antes, talvez, tenha sido incluído em algum lote variado, de segunda mão. Obviamente não estava ciente de sua natureza, já que eu o comprei por apenas um dólar. Ele embalou para mim a ponderosa coisa, bastante satisfeito com a venda inesperada, e me deu um satisfeito bom-dia.






Saí apressadamente, meu preciso prêmio sob o braço. Que descoberta! Havia ouvido falar antes deste livro. Ludvig Prinn era seu autor, que havia perecido na fogueira inquisitorial em Bruxelas, quando os julgamentos das bruxas estavam em seu auge. Um estranho personagem – alquimista, necromante, reputadamente um mago – gabava-se de ter chegado a uma idade miraculosa, quando finalmente sofreu a imolação flamejante nas mãos do braço secular. Dizia ele ser o único sobrevivente da malfadada Nona Cruzada, exibindo como prova certos documentos embolorados que o atestavam. É verdade que um certo Ludvig Prinn estava entre os cavalheiros vassalos de Montserrat, nas mais antigas crônicas, mas os incrédulos rotularam Ludvig como um impostor insano, embora talvez um descendente direto do guerreiro original.


Ludvig atribuía seu aprendizado feiticeiro aos anos que passara cativo entre os magos e taumaturgos da Síria, e falava longamente dos encontros com os gênios e efreets da mitologia do Oriente Médio. Sabe-se que ele passou algum tempo no Egito, e existem lendas entre os dervixes líbios falando dos feitos do velho vidente em Alexandria.


De qualquer forma, seus dias de declínio foram passados no país flamingo das terras baixas, onde havia nascido e onde residia, apropriadamente, nas ruínas de uma tumba pré-romana erguida na floresta próxima a Bruxelas. Ludvig tinha a reputação de habitar ali entre um enxame de familiares e conjurações temerariamente invocadas. Os manuscritos ainda existentes falam dele de maneira reservada, como sendo atendido por “companheiros invisíveis” e “servos vindos das estrelas.” Os camponeses evitavam a floresta à noite, pois não gostavam de certos ruídos que ressoavam sob a lua, e muito certamente não estavam ansiosos de ver o que andava venerando nos velhos altares pagãos que erodiam em certos bosques mais soturnos.


Qualquer que seja a verdade, essas criaturas que ele comandava jamais foram vistas após a captura de Prinn pelos lacaios inquisitoriais. Os soldados perseguidores encontraram a tumba totalmente deserta, muito embora tenha sido saqueada nos mínimos detalhes, antes de sua destruição. As entidades sobrenaturais, os instrumentos e componentes incomuns – todos haviam curiosamente desaparecido. Uma busca nas florestas proibidas e um exame temeroso dos estranhos altares não adicionou informação alguma. Haviam manchas frescas de sangue nos altares, e também na roda de tortura, antes do fim das sessões de questionamento de Prinn. Uma série de torturas particularmente atrozes falharam em suscitar quaisquer revelações adicionais do mago silencioso, e depois de muito os exaustos interrogadores cessaram de tentar e lançaram o envelhecido feiticeiro numa masmorra.




Foi na prisão, enquanto aguardava o julgamento, que escreveu as linhas mórbidas e pressagiosas de horror do De Vermis Mysteriis, conhecido hoje como Mistérios do Verme. Como ele fora contrabandeado para além dos guardas atentos foi em si um mistério, mas um ano após sua morte ele foi impresso em Cologne. Foi imediatamente suprimido, mas umas poucas cópias já haviam sido distribuídas em privado. Estas por sua vez foram transcritas e embora houvesse uma impressão posterior, censurada e deletada, apenas o original em latim é aceito como genuíno. No decorrer dos séculos apenas uns poucos eleitos houveram lido e ponderado sobre seus conhecientos. Os segredos do velho arquimago são conhecidos hoje apenas pelos iniciados, e estes descorajam quaisquer tentativas de espalhar sua fama, movidos por certas razões bastante definidas.


Era isto, em resumo, o que eu sabia da história do volume, na época em que ele me caiu nas mãos. Como item de colecionador, apenas, o livro era uma descoberta fenomenal, mas quanto a seus conteúdos, não poderia fazer avaliação. Estava em latim. Já que posso falar ou traduzir apenas umas poucas palavras desse idioma erudito, fui confrontado por uma barreira, tão logo abri as páginas emboloradas. Era enlouquecedor ter tal cofre do tesouro de conhecimento obscuro ao meu dispor e ainda assim carecer da chave que o abriria.


Por um momento entrei em desespero, pois estava indisposto a abordar algum erudito clássico ou entendido em latim, portando livro tão horroroso e blasfemo. Veio então a inspiração. Por que não ir a leste buscar a ajuda de meu amigo? Ele era estudante dos clássicos e estaria menos propenso a ficar chocado com os horrores das revelações nocivas de Prinn. Portanto enderecei a ele uma carta ansiosa, e logo após recebi minha resposta. Ele teria prazer em ajudar-me – eu devia apressar-me em ter com ele.








II


Providence é uma cidade adorável. A casa de meu amigo era antiga e esquisitamente georgiana. O primeiro piso era uma joia da atmosfera colonial. O segundo sob antigos telhados de duas águas que sombreavam a imensa janela, serviam como escritório para meu anfitrião.


Foi ali que ponderamos naquela noite lúgubre e fatídica de fim de abril; ali sob a janela aberta que contemplava o mar azul. Era uma noite sem lua; opressiva e melancólica com sua bruma que enchia a escuridão de sombras quirópteras. Em minha mente posso ainda vê-lo – o minúsculo aposento iluminado por lampião, com uma grande mesa e as cadeiras de espaldar alto; prateleiras delimitando as paredes; manuscritos estocados em arquivos especiais.


Eu e meu amigo sentamos na mesa, com o misterioso volume diante de nós. Seu perfil magro jogava uma perturbadora sombra na parede, e seu rosto de cera era furtivo à luz pálida. Havia um inexplicável ar de portentosa revelação, bastante perturbador em sua potência; eu pressentia a presença de segredos querendo ser revelados.




Meu companheiro também o detectara. Longos anos de experiência ocultista haviam aguçado sua intuição a um espantoso grau. Não fora o frio que o fizera tremer ao sentar na cadeira; não foi a febre que fez seus olhos flamejarem como fogos incrustados como joias. Ele sabia, mesmo antes de abrir o amaldiçoado tomo, que este era malévolo. O cheiro embolorado que sabia daquelas páginas antigas carregava consigo os miasmas da tumba. As folhas estavam mordidas de traças nas bordas, e os ratos haviam roído o couro da capa; ratos que talvez tivessem uma comida mais sórdida como sua ração comum.


Havia contado a meu amigo a história do volume naquela tarde, e desembrulhado o tomo em sua presença. Senti então que ele estava ávido e disposto a uma tradução imediata. Mas agora, punha dificuldades e objeções.


Não seria sábio, insistia ele. Aquele era um conhecimento maligno – quem poderia dizer que segredos temidos até pelo demônio continham aquelas páginas, ou que males poderiam cair sobre o ignorante que buscasse brincar com seu conteúdo? Seria bom não aprender tanto, e homens já haviam morrido por exercer a sabedoria pútrida que aquelas folhas continham. Meu amigo implorou-me para abandonar a busca, enquanto o livro ainda permanecia sem ser aberto, pedindo-me que buscasse minha inspiração em coisas menos insalubres.


Fui um tolo. Desfiz suas objeções com palavras rápidas, vãs e vazias. Eu não tinha medo. Que pelo menos contemplássemos os conteúdos de nosso prêmio. Comecei a virar as páginas. O resultado foi desabonador. Era, afinal de contas, um volume de aparência comum – folhas amareladas e apodrecidas cheias de textos em latim, escritos com letras negras. Isto era tudo; sem ilustrações nem desenhos alarmantes.


Meu amigo não conseguiu resistir mais ao fascínio de tal guloseima bibliófila. Num momento estava olhando por cima de meu ombro, com atenção, ocasionalmente murmurando trechos de frases em latim. O entusiasmo o dominou, finalmente. Agarrando o precioso tomo com ambas as mãos, sentou-se próximo à janela e começou a ler alguns parágrafos aleatórios, de vez em quando traduzindo-os para o inglês.


Seus olhos cintilavam com uma luz feral; seu perfil cadavérico ficou mais tenso, conforme esquadrinhava aquelas runas mofadas. As sentenças trovejavam numa temível litania, e então decaíam em tons abaixo de um sussurro, conforme sua voz ficava tão suave quanto o sibilar de uma víbora. Compreendi apenas algumas frases aqui e ali, pois em sua introspecção, ele parecia haver esquecido de mim. Estava lendo algo sobre feitiços e encantamentos. Lembro de alusões a certos deuses da adivinhação como o Pai Yig, o sombrio Han, e Byatis de barba de serpentes. Senti calafrios, pois já conhecia esses nomes antigos, mas sentiria ainda mais calafrios se ao menos soubesse o que estava para acontecer.


A coisa aconteceu rápido. Subitamente ele voltou-se para mim com grande agitação, sua voz empolgada num tom estridente. Perguntou-me se eu lembrava das lendas da feitiçaria de Prinn, e das histórias dos servos invisíveis que ele ordenava que descessem das estrelas. Assenti, pouco compreendendo a causa de seu súbito frenesi.


Ele contou-me então a razão. Ali, num capítulo sobre familiares, encontrara uma oração ou feitiço, talvez o mesmo usado por Prinn para convocar seus servos invisíveis de além das estrelas! Deixe-me ouvir o que ele lia.






Sentei ali parvamente, feito um tolo ignorante e estúpido. Por que eu não gritava, tentava escapar, ou arrancava aquele monstruoso manuscrito de suas mãos? Em vez disso sentei ali – sentei enquanto meu amigo, numa voz rebentando de empolgação antinatural, lia em latim uma longa e sonorosamente sinistra invocação.


“Tibi, Magnum Innominandum, signa stellarum nigrarum et bufoniformis Sadoquae sigillum.…”


O ritual grasnante prosseguiu, e então alçou voo nas asas de um horror medonho e noturno. As palavras pareciam contorcer-se, como chamas no ar, queimando meu cérebro. Os tons trovejantes soavam ecos no infinito, além da mais distante das estrelas. Pareciam passar por entre portais primevos e adimensionais, buscando um ouvinte para convocá-lo à terra. Seria tudo aquilo uma ilusão? Não parei para pensar em nada.


Pois a convocação involuntária foi respondida. Mal a voz de meu companheiro se calara, naquele pequeno aposento, veio o terror. O aposento ficou frio. Um súbito vento gritou pela janela aberta; um vento que não era da terra. Trazia um mal que balia de longe, e com esse som, a face de meu amigo tornou-se uma pálida máscara branca de horror recém-desperto. Então houve um rachar nas paredes, e o peitoril da janela ruiu diante de meus olhos arregalados. Daquele nada além da abertura veio uma súbita explosão de gargalhada lúbrica – uma risadaria histérica, nascida da loucura completa e avassaladora. Subiu até a mais casqueante quintessência de todo horror, horror sem uma boca que o proferisse.


O resto aconteceu com apavorante rapidez. Num átimo, meu amigo começou a gritar, perto da janela; gritar e agitar selvagemente as mãos no ar vazio. À luz do lampião, vi suas feições contorcerem-se num esgar de agonia insana. Um momento depois, seu corpo ergueu-se do chão, sem que nada o estivesse segurando, e começou a torcer-se para trás, num ângulo capaz de quebrar-lhe as costas. Um segundo mais tarde, veio o nauseante som de ossos quebrados. Sua forma agora pairava no próprio ar, olhos vidrados e mãos apertando convulsivamente algo que parecia invisível. Mais uma vez atroou o som de escárnio maníaco, mas daquela vez dentro do quarto!


As estrelas moviam-se numa angústia vermelha; o vento frio matraqueava em meus ouvidos. Aninhei-me em minha cadeira, olhos pregados naquela espantosa cena. Meu amigo agora estava guinchando; seus gritos misturavam-se à exultante e atroz gargalhada que vinha do ar vazio. Seu corpo pendurado, pendulando no espaço, mais uma vez contorceu-se e brotou sangue de seu pescoço rasgado, esguichando como se de uma fonte de rubis.


Esse sangue jamais alcançou o chão. Parou em meio ao ar, e a gargalhada cessou, substituída por um nojento ruído de sucção. Imerso num novo e acelerado horror, percebi que o sangue estava sendo drenado para alimentar a invisível entidade do além! Que criatura do espaço havia sido tão súbita e involuntariamente invocada? O que era aquela monstruosidade vampírica que eu não conseguia enxergar?


Naquele momento uma horrível metamorfose começou a acontecer. O corpo de meu companheiro ficou murcho, emaciado, sem vida. Finalmente foi jogado ao chão e ficou lá, repugnantemente imóvel. Mas no próprio ar, outra mudança, ainda mais macabra, começou a ocorrer.


Um brilho avermelhado encheu o canto da janela – um brilho sangrento. Lenta, mas constantemente, os contornos vagos de uma Presença começaram a se exibir; os contornos sujos de sangue daquele invisível e desengonçado errante das estrelas. Era vermelho e gotejante; uma imensidade de geleia pulsante se movia; uma bolha escarlate e suas miríades de trombas tentaculares, que se mexiam, e se mexiam... Haviam ventosas nas pontas dos apêndices, e estes abriam e fechavam numa volúpia carniceira... A coisa era inchada e obscena; uma massa sem cabeça, nem rosto, nem olhos, de mandíbula voraz e as garras titânicas de um monstro nascido nas estrelas. O sangue humano do qual havia se alimentado revelava os contornos até então invisíveis da coisa que se banqueteava. Não era uma visão própria para olhos de gente sã.


Felizmente para meu estado mental, a criatura não se demorou. Abandonando a coisa morta, cadavérica e mole no chão, com decisão voltou-se para a abertura. Nela desapareceu, e ouvi sua risada zombeteira à distância, flutuando nas asas do vento, enquanto ele reentrava nos abismos de onde havia vindo.


Isto foi tudo. Fui deixado sozinho no aposento, com aquele corpo mole e sem vida a meus pés. O livro havia desaparecido; mas haviam impressões sangrentas na parede, poças de sangue no chão, e o rosto de meu pobre amigo era uma massa sangrenta, que morta fitava as estrelas.


Por um longo período de tempo, sentei sozinho, em silêncio, antes que ateasse fogo ao aposento e a tudo que ele continha. Depois disso, saí correndo, rindo, pois eu sabia que as chamas erradicariam todo traço do que permanecia ali. Havia chegado pouco antes, naquela tarde, e ninguém me conhecia, e ninguém havia me visto, e parti antes que as chamas brilhantes me denunciassem. Tropecei por horas por entre as ruas tortuosas, e rebentava numa gargalhada contínua e idiota toda vez que olhava para as estrelas sempre vigilantes, sempre ardentes, que observavam-me furtivamente através dos rolos de névoa assombrada.


Depois de muito tempo acalmei-me e tomei um trem. Permaneci calmo durante toda a longa jornada para casa, e calmo permaneci enquanto escrevi este relato. Até mesmo permaneci calmo quando li sobre a curiosa morte acidental de meu amigo, no fogo que destruíra sua morada. É somente nas noites em que as estrelas brilham, que os sonhos devolvem-me a um gigantesco labirinto de medos frenéticos. E então me afundo nas drogas, numa vã tentativa de banir essas memórias insistentes de meus sonhos. Mas na verdade não me importo, pois sei que não permanecerei aqui por muito tempo.


Tenho uma curiosa desconfiança de que verei novamente o errante das estrelas. Penso que ele retornará logo, mesmo sem ser convocado de novo, e sei que quando ele vier, me perseguirá e me carregará para a escuridão que abriga meu amigo. Às vezes eu quase anseio pelo advento desse dia, pois nele desvendarei de uma vez por todas os Mistérios do Verme.






The Shambler From the Stars
Originalmente publicado na revista Weird Tales de setembro de 1935.

http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Bloch

Robert Bloch escreveu este conto com 18 anos e nem mesmo foi o seu primeiro. Recebeu "autorização por escrito" de HP Lovecraft para assassiná-lo na história. Seu estilo mais tarde se desviou do horror cósmico e sua obra mais popular e famosa é "Psicose", que originou o filme hitchcockiano.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O RETORNO DE HASTUR - Parte Final


V




Chego agora àquela porção de minha narrativa que temo iniciar, não apenas devido à credibilidade do que devo escrever, como porque, na melhor das hipóteses, será um registro vago e incerto, repleto de inferências e evidências notáveis, embora desconexas, de um mal ancilário e pleno de horror, vindo de além do tempo, de coisas primais vagando logo após os limites da vida comum que conhecemos, de sobrevivências animadas terríveis nos lugares ocultos da Terra. O quanto disto Tuttle aprendeu daqueles textos infernais que confiou-me para que eu os enviasse às prateleiras proibidas da Biblioteca da Universidade Miskatonic, não sei. Certo é que ele deduziu muitas coisas que não sabia até que fosse muito tarde; de outras teve pistas, embora haja dúvida que ele tenha compreendido totalmente a magnitude da tarefa a qual tão descuidadamente se propusera, quando buscou descobrir a razão por trás da ordem de deliberada destruição dos livros e da casa de Amos Tuttle.


Logo após meu retorno às antigas ruas de Arkham, os eventos sucederam com indesejada rapidez. Depositei o pacote de livros na biblioteca com o dr. Llanfer, e imediatamente parti para a casa do Juiz Wilton, onde fui feliz em encontrá-lo. Ele estava para começar a jantar, e convidou-me para juntar-me a ele, o que aceitei, embora não tivesse apetite algum; de fato toda comida parecia-me repugnante. Naquele momento todos os medos e dúvidas intangíveis que havia guardado conflitavam dentro de mim, e Wilton percebeu logo que eu estava sob grave e incomum estresse nervoso.


“Coisa curiosa o incidente da cripta Tuttle, não é mesmo?” comentou com destreza, adivinhando a razão de minha presença em Arkham.


“Sim, mas não mais curiosa que as circunstâncias da reposição do corpo de Amos Tuttle aos pés de seu jardim,” respondi.


“De fato,” disse ele sem sinais visíveis de interesse, sua calma servindo para restaurar algum senso de tranquilidade em mim. “Ouso dizer que você veio de lá e sabe exatamente do que está falando.”


Neste ponto, relatei o mais brevemente possível a história que havia vindo contar, omitindo apenas uns detalhes mais improváveis, mas não tendo sucesso total em afastar suas dúvidas, embora ele fosse educado demais para permitir que essas dúvidas fossem forçadas sobre mim. Ele sentou um pouco, num silêncio pensativo, depois que terminei, fitando uma ou duas vezes o relógio, que mostrava que a hora já havia passado das sete. Interrompeu então seu devaneio para sugerir que eu telefonasse à Lewiston House e arranjasse para que qualquer chamada para mim fosse transferida para a casa do juiz Wilton. Fiz isto de imediato, um tanto aliviado com o fato dele ter consentido em levar o problema a sério o suficiente para devotar sua noite a ele.


“Quanto à mitologia,” disse ele, logo após eu retornar à sala, “pode ser descartada como uma criação de uma mente louca, a do árabe Abdul Alhazred. Eu havia aconselhado sobre isso, mas à luz das coisas que aconteceram em Innsmouth, talvez fosse melhor que não apostar em nada. Contudo, eu não estava presente na sessão. A preocupação imediata é o próprio Paul Tuttle; proponho que examinemos suas instruções de antemão.”


Mostrei o envelope e o abri. Continha apenas uma folha de papel, com as seguintes linhas enigmáticas e agourentas:


“Minei a casa e o terreno. Vá imediatamente, sem demora, ao portão do pasto, a oeste da casa, onde, no arbusto do lado direito da pista próxima a Arkham, escondi o detonador. Meu Tio Amos estava certo – isto deveria ter sido feito desde o começo. Se você me falhar, Haddon, então, diante de Deus, terá solto na terra um tal flagelo como o homem jamais conheceu e jamais verá novamente – se de fato o homem sobreviver a ele!”


Uma amostra daquela verdade cataclísmica deve ter, naquele momento, começado a penetrar minha mente, pois quando o juiz Wilton acabou de ler o trecho, fitou-me embaraçado e perguntou, “O que irá fazer?” Respondi sem hesitar: “Vou seguir estas instruções ao pé da letra!”


Ele observou-me por um momento, sem comentar; e então aceitou o inevitável e afastou-se. “Devemos então esperar as dez da noite, juntos,” disse gravemente.


O ato final do incrível horror que teve seu ponto focal da casa Tuttle ocorreu pouco antes das dez, caindo sobre nós, em seu início, de maneira tão desconcertantemente prosaica, que o horror total, quando veio, foi sem dúvida chocante e profundo. Pois às cinco para as dez, o telefone tocou. O juiz Wilton pegou do aparelho e mesmo de onde eu estava sentado consegui ouvir a voz em agonia de Paul Tuttle, chamando meu nome.


Tomei o telefone da mão do juiz Wilton.


“É Haddon,” disse numa calma que não sentia. “Que foi, Paul?”


“Faça-o!” gritou. “Oh, Deus, Haddon – faça-o agora – antes... tarde demais. Oh, Deus – o refúgio! O refúgio!... Você conhece o lugar... portão do pasto. Oh, Deus, seja rápido!...” E então aconteceu aquilo que jamais esquecerei; a súbita e terrível transformação de sua voz, de modo que foi como se ela entrasse em colapso e degenerasse em balbucios abismais; pois os sons que vieram pelo fio eram bestiais e grosseiros, sons brutais e salivantes, dentre os quais alguns se repetiam e se repetiam, e eu ouvia num horror cada vez maior aquele matraquear triunfante, antes que ele se fosse:


“Iä! Iä! Hastur! Ugh! Ugh! Iä Hastur cf’ayak ’vulgtmm, vugtlagln vulgtmm! Ai! Shub-Niggurath!... Hastur – Hastur cf’tagn! Iä! Iä! Hastur!...”


E então, abruptamente, todo som se calou, e voltei-me para presenciar as feições aterrorizadas do juiz Wilton. E ainda assim não o havia visto, nem havia visto qualquer coisa que, em minha compreensão, devesse ser feita; pois abruptamente, com efeito cataclísmico, compreendi o que Tuttle havia falhado em descobrir, até que fosse tarde demais. E num ímpeto, desliguei o telefone; saí correndo da casa para a rua, sem chapéu nem casaco, com o som do juiz Wilton chamando a polícia pelo telefone, ainda ecoando na noite atrás de mim. Corri numa velocidade antinatural das ruas sombrias e assombradas da cidade de Arkham, amaldiçoada pelas bruxas, para  noite de outubro da Estrada Aylesbury, direto pela pista e pelo portão do pasto, onde por um breve instante, ouvi as sirenes soarem por trás de mim, e vi a casa Tuttle através do jardim, delineada num infernal brilho púrpura, bela, mas ainda assim, alienígena e tangivelmente maligna.


Empurrei então o detonador, e com um tremendo rugido, a velha casa explodiu em pedaços, e as chamas saltaram de onde a casa um dia havia estado. Por uns poucos momentos atônitos fiquei ali, subitamente ciente da chegada da polícia pela estrada ao sul da casa, antes de começar a mover-me na direção deles, e ver assim que a explosão havia conseguido o que Paul Tuttle havia imaginado: o colapso das cavernas subterrâneas sob a casa; pois a própria terra estava se assentando, deslocando-se para baixo, e as chamas que subiam chiavam e ferviam na água que irrompia ali embaixo.


Foi então que aconteceu outra coisa – o último horror alienígena, que misericordiosamente bloqueou o que eu vi nas ruínas que se juntavam sobre as águas em inundação – a grande massa protoplásmica saída do centro do lago formado onde estava antes a casa Tuttle, e a coisa que veio gritando contra nós pelo jardim, antes que encarasse a outra e começasse uma batalha titânica pelo domínio, interrompida apenas pela brilhante explosão de luz que pareceu emanar do céu a leste, como um feixe de relâmpago incrivelmente poderoso; uma tremenda descarga de energia em forma de luz, de modo que por um horrendo momento tudo se revelou – antes que apêndices relampejantes caíssem como se do coração do próprio pilar de luz, um abarcando a massa nas águas, e jogando-a para longe no mar, o outro agarrando aquela segunda coisa no jardim e lançando-a ao céu, numa mancha negra que diminuía, onde desapareceu entre as estrelas eternas! E então veio aquele silêncio cósmico e absoluto, e onde um momento antes, este milagre de luz acontecera, estava apenas a escuridão e a linha de árvores contra o céu, e baixo no leste, o olho brilhante de Betelgeuse, em Órion ascendia na noite de outono.


Por um instante, não sabia o que era pior – o caos do momento anterior, ou o silêncio completo e sombrio do momento presente; mas os pequenos gritos dos homens horrorizados fizeram-me recuperar a vontade, e notei então que, pelo menos eles não compreenderam o horror secreto, a coisa final que cauteriza e enlouquece, a coisa que ascende nas horas negras para espreitar as profundezas sem fundo da mente. Eles podem ter ouvido, como eu ouvi, aquele som agudo e distante de assobio, aquela ululação enlouquecedora vinda do golfo imensurável e profundo do espaço cósmico, a lamúria que desceu com o vento, e as sílabas que flutuaram pelas correntes de ar: Tekeli-li, tekeli-li, tekeli-li... E certamente viram a coisa que veio gritando conosco, vinda das ruínas que afundavam lá embaixo, a caricatura distorcida de um ser humano, com seus olhos caídos na invisibilidade, em massas grosseiras de carne escamosa, a coisa que balançava seus braços sem ossos contra nós, como os apêndices de um polvo, a coisa que berrava e matraqueava com a voz de Paul Tuttle!


Mas eles não podiam saber o segredo que só eu sabia, o segredo que Amos Tuttle deve ter imaginado nas sombras de suas últimas horas, a coisa que Paul Tuttle demorou demais para descobrir: que o refúgio buscado por Hastur, o Inominável, o refúgio prometido Àquele Que Não Deve Ser Nomeado, não era o túnel, nem era a casa, mas o corpo e a alma de Amos Tuttle em pessoa, e caso estes não estivessem dispostos, a carne viva e a alma imortal daquele que vivesse naquela casa amaldiçoada na Estrada Aylesbury!










O conto completo pode ser encontrado no seguinte link:
O RETORNO DE HASTUR - August Derleth - Traduzido por Arthur Ferreira Jr.'.


THE RETURN OF HASTUR foi publicado originalmente pela Arkham House no livro "THE MASKS OF CTHULHU", em 1958.


AUGUST DERLETH foi um escritor de muitos gêneros, porém é mais lembrado por suas contribuições ao Mythos de Cthulhu. Além de inserir alguns conceitos de sua criação (o "elementalismo" e o "dualismo dos Deuses Anciões" vistos pela primeira vez no conto acima, Derleth foi responsável por popularizar o Mythos e a obra de HP Lovecraft, com a criação da editora Arkham House e a continuação do estímulo a novos escritores de horror cósmico.


A tradução acima não é um desafio aos direitos do autor, mas uma amostra de sua obra no idioma português, no qual não é encontrado facilmente.


http://en.wikipedia.org/wiki/August_Derleth